“Ardente Vingança” [Is God Is (2026)] – Crítica

Gêmeas em ação! O thriller dirigido e escrito por Aleshea Harris é uma jornada de vingança estabelecendo a única cura para masculinidade tóxica, a morte.

Orion Pictures/Amazon MGM Studios

Relacionamentos vem se tornado uma pauta recorrente principalmente pelo aumento de casos de femínicidios no Brasil e no mundo. O sentimento de posse, a coerção tóxica, a violência doméstica e a raiva gerada por homens em relação a mulheres é algo que deve ser combatido a qualquer custo. No cinema estes casos são retratados cada vez mais de forma mais frequentes, mas as vezes sem as nuances necessárias para abrir boas discussões.

Entretando, me peguei assistindo ao filme “Ardente Vingança” (Is God Is, 2026) vendo que isto está preste a mudar. O longa dirigido e escrito pela estreante Aleshea Harris, produzido pela Orion Pictures e Amazon MGM Studios que estreou de forma silenciosa em circuitos mais fechados nos EUA e que dia 19 de agosto deve chegar ao catálogo global do Prime Video, conta a história de duas irmãs gêmeas, Racine (Kara Young) e Anaia (Mallori Johnson), que partem numa missão a mando da mãe Ruby (Vivica A. Fox) com um único objetivo, matar o pai (Sterling K. Brown).

Veja bem, o longa não é apenas uma história sobre vingança, mas sobre acabar com um ciclo de violência que deixou marca quando o pai da gêmeas botou fogo na mãe e nelas quando eram ainda crianças, deixando não só cicatrizes e queimaduras graves em seus corpos e rostos, mas um desejo de impotência e consequências irreversíveis em três mulheres que deveriam ser sua família.

O filme usa de uma produção caprichada, trilha sonora cheia de personalidade, direção primorosa e edição esperta para explorar a relação de Racine e Anaia quando começam a seguir rastro que as leve finalmente ao lugar onde “o homem” (a narrativa não dá rosto até antes do final e nem menciona o nome) mora para realizarem sua missão. Não existe meio termos, existe sim receios, mas o desejo de vingança que gradativamente vai crescendo a cada cena, mostrando o porque do pai ter que morrer deixa o filme complexo e interessante de assistir.

Orion Pictures/Amazon MGM Studios

Veja bem, o pai tem todas as características do macho alfa, lábia para atrair as mulheres, libido sexual que as aprisiona e um extinto violento que vai sendo mostrado através de flashbacks e todas as pessoas que o personagem tenha tido contato. Não só revelando para nós público o quão assustador é o indivíduo, mas como ele consegue seduzir e destruir tudo que toca.

O estilo empregado esteticamente por Aleshea lembra muito filmes do Tarantino em termos de violência, mas também as produções voltadas para público preto como estilizado “Queen & Slim” por conta da vibe road trip, mas ainda assim consegue uma concepção única que traz no centro a conexão entre essas duas irmãs com personalidades opostas, mas que simplesmente possuem um química incrível que a diretora usa o elo místico  de conexão entre gêmeas até mesmo nos diálogos onde o pensamento de ambas está conectado, mostrando uma criatividade tremenda como contadora de história.

O fato é que “Ardente Vingança” ou “Is God Is”, é um filme que explora olhar feminino na busca por justiça numa vingança que prende atenção do expectador. É bizarro como cada vez que vamos descobrindo mais sobre a história, o passado dos personagens e sobre a figura vilanesca do pai, mais engajado e motivado a torcer pela gêmeas ficamos numa escalada de ação, perigo e violência que descamba para o excelente terceiro ato.

É claro que o filme funciona por conta da presença de um elenco preto de primeira, a começar pelas atrizes Kara Young (Sou de Virgem) e Mallori Johnson (Kindred: Segredos e Raízes), a primeira traz a ferocidade de uma garota em busca de vingança e a segunda traz calma e o bom senso para uma dupla que parece se completar em tela, ambas entregam um trabalho bastante consistente.

Orion Pictures/Amazon MGM Studios

Os atores coadjuvantes são participações de muito luxo como Vivica A. Fox (Kill Bill) no papel da mãe Ruby, Sterling K. Brown (Paradise) no papel assustador do “homem”, pai das gêmeas. Além das boas participações de Janelle Monáe (Moonlight: Sob a Luz do Luar) e Mykelti Williamson (Um Limite Entre Nós), todos muito bem mesmo com sequências pequenas e pontuais, porém cruciais para desenvolver a narrativa.

Não existe meio termo aqui, “Ardente Vingança” é um filme sem muito tempo a perder que mostra a ferocidade na forma como escancara todos os traços da violência masculina representada numa misoginia disfarçada de afeto que acaba por potencializar a jornadas dessas duas irmãs que culmina num rastro de sangue e fúria com um final que vai te deixar no mínimo chocado e esperançoso ao mesmo tempo.

Em termos gerais, o filme lança a pergunta sobre até onde iremos por justiça, mas não tenta justificar muito o uso da violência para trazer resolução para uma família mutilada por um ódio que se camufla no meio de uma sociedade que insiste em usar religião e conceitos sociais para proteger homens violentos e perigosos que as vezes só conseguem ser parados quando se age até a última consequência. O longa escancara um mal e faz você pensar que precisamos ficar vigilantes na forma de combater esse ciclo de misoginia, antes que ela acabe com tudo que a humanidade tem de bom.

Gostou? Veja o trailer abaixo. Se já assistiu, comente o que achou.

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