“Nosso Segredo” – Crítica

Entre metáforas e surrealismo para lidar com luto. O ganhador de 3 kikitos de ouro no Festival de Gramado 2026, esse longa mostra a força do cinema preto brasileiro numa narrativa sensível e poderosa.

Foto/Reprodução – EntreFilmes/Globo Filmes

O cinema nacional respira muito bem obrigado. É uma palavra que precisa sempre ser enfatizada, cada vez que algum cineasta brasileiro consegue um grande feito, seja Walter Salles levando melhor filme internacional no Oscar 2025 pelo excelente “Ainda Estou Aqui”, seja Kleber Mendonça Filho sendo indicado a quatro Oscars este ano pelo excelente “O Agente Secreto”. Estas conquistas não só abrem portas, mas mostram que o talento nacional na sétima arte precisa ser valorizada.

Após essa onda de filmes premiados, a maior incógnita que ficou para os brasileiros foi, e agora? Será que o Brasil consegue manter o momento bom de reconhecimento internacional? Digo não só que sim, mas que temos potencial muito maior, ainda mais depois que filmes protagonizados e dirigidos por cineastas pretos começam a ganhar seu espaço, sendo os principais filmes desta temporada atual, com reais chances de disputar vaga para melhor filme internacional como representantes do Brasil para conseguir uma vaga no Oscar 2027.

Hoje fui conferir um deles no Espaço Petrobrás de Cinema aqui em São Paulo, o premiado filme “Nosso Segredo” que estreou nacionalmente no último dia 27 de Agosto. O longa é uma produção da EntreFilmes, co-produzido pela Globo Filmes e distribuído pela Vitrine Filmes que surpreendeu com a recepção no 54° Festival de Gramado conquistando três Kikitos de Ouro (nome do prêmio gaúcho) incluindo Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. E depois de sair da sessão, deu para perceber o porquê de tamanho prestígio.

Foto/Reprodução – EntreFilmes/Globo Filmes

O longa dirigido por Grace Passô conta a história de uma família enlutada que vivem seus problemas particulares ao mesmo tempo que lidam com a perda. Quando o filho caçula revela um segredo no local onde moram, a família precisa encontrar no amor, coragem e união uma forma de superar este momento tão delicado.

A sinopse parece simples, mas “Nosso Segredo” é daqueles filmes que misturam drama, suspense e mistério de uma forma magistral. Narrativamente Grace, que também assina o roteiro sabe deixar o expectador curioso apresentando os personagens aos poucos cada um com sua particularidade, de uma forma bastante cotidiana e sem pressa deixando tudo fluir naturalmente.

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É neste contexto que conhecemos o tio Gilson (Robert Frank) que dirige um carro de aplicativo. O filho mais velho, Guto (Flip) que parece sem rumo e tentando se encontrar. A filha mais nova, Grazi (Jessica Gaspar) que namora, mas não consegue se conectar. A irmã da mãe, Anamélia (Marisa Revert) que vive com a família e tem relacionamento com uma outra mulher, Lêda (Glaucia Vandeveld). A mãe, Suely (Ju Colombo) que vive seu luto particular enquanto cuida dos afazeres de casa. E por último o filho caçula Tutu (Efraim Santos), que mente estar doente para não ir à escola.

Todos com um sentimento comum, o luto pela perda do pai. É por este caminho que Grace vai tecendo um mistério entorno desta família e da casa que parece estar passando por uma reforma e ao mesmo tempo se deteriorando aos poucos, apresentando rachaduras, infiltrações e barulhos estranhos.

Foto/Reprodução – EntreFilmes/Globo Filmes

É através desses pontos peculiares que “Nosso Segredo” lida com drama e abre espaço para o mistério, que parece assombrar a família, que parecem não perceber um declínio de seu habitat natural, por estarem entregue a suas tristezas particulares não enxergando os sinais que o pequeno Tutu dá, sendo ignorado na maior parte do tempo.

O grande “segredo” do filme é ser cinema antes de ser didático demais, expositivo demais. Existe uma delicadeza conduzido pela direção de Grace que respira equilíbrio, deixando que tudo seja mostrado e não só falado. É uma história visual, delicada, conduzida com paciência enquanto trata de assuntos profundos entorno do luto, como: pertencimento, senso de família, amor, negritude, religiosidade e conexão.

É lindo como a fotografia Wilssa Esser, a direção de arte de Lucas Osório e a trilha sonora do renomado pianista Amaro Freitas se movem de uma forma impressionante quase como personagens vivos do filme trazendo emoções pulsantes em cenas chaves que misturam surrealismo e metáforas que vão desabrochando as emoções e sentimentos de cada personagem, cada um com seu momento para brilhar.

Foto/Reprodução – EntreFilmes/Globo Filmes

Para os menos pacientes, “Nosso Segredo” pode soar como “lento”, mas na verdade é extremamente inteligente em trabalhar com cuidado os medos e receios de uma família preta de periferia que se vê sem seu porto seguro e precisam encontrar o caminho para se reencontrarem e seguir em frente.

O mais lindo deste filme é a capacidade de trazer uma nova abordagem sobre o luto que poucas vezes vi em tela, poderia facilmente cair num maniqueísmo, mas Grace Passô tem total controle como contadora de história, trazendo o maior segredo do filme a tona de forma potencializar surpresa em um final lindo, delicado e devastador ao mesmo tempo, ao ponto que abre uma porta de esperança para um futuro mais feliz.            

Por tudo que foi falado, “Nosso Segredo” é daqueles filmes brasileiros que vão ficar marcados pela destreza técnica, delicadeza narrativa e pela forma como impacta o expectador ao explorar metáforas surrealistas através do luto num profundo estudo de personagem com poucos diálogos e muito sentimento atravessando a fronteira do sobrenatural sem se perder. É lindo ver o cinema preto com um filme tão gigante que merece ser visto em mais salas pelo Brasil, pois é de longe uma das produções mais marcantes e lindas do ano. Esteja preparado.

“Grace Passô escreve e dirigi uma narrativa que mistura drama, mistério e suspense trazendo a temática do luto de uma forma poucas vezes vista no cinema moderno. “Nosso Segredo” é daqueles filmes que vai entrando na mente do expectador e difícil de esquecer depois. Com um elenco preto primoroso e uma produção técnica impecável com uma fotografia, trilha sonora, direção de arte e uma direção impecável entrega talvez a melhor produção nacional do ano até o momento”

Certificado Excelência Negra

Gostou? Veja o trailer abaixo e diga o que achou se já conferiu no cinema.

Elenco no Festival de Gramado.

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