Uma biografia decente! Uma vida de traumas, uma aura de gênio, uma atuação marcante de Jafaar Jackson e Colman Domingo, que sobressai aos efeitos genéricos de uma narrativa que não decola, mas que entretém com coração.

Retratar ídolos no cinema sempre foi uma tarefa árdua para qualquer cineasta, seja ele diretor ou roteirista. Ao contar a história de pessoas com vasto currículo, principalmente se for alguma cantora ou cantor lendário, exige uma atenção bastante precisa para agradar tanto fãs quanto não fãs. Mostrar o lado humano de ícone é ainda mais complicado quando o peso da trajetória desta pessoa tem apelo universal na humanidade atraindo legiões pelo mundo todo.
Esta pode ser a definição da vida de “Michael Jackson” ou “MJ”, que finalmente tem sua vida retratada em tela pelas mãos do diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) no longa da Universal Pictures e Lionsgate, “Michael” (Michael, 2026), que conta a história do Rei do Pop desde sua infância até boa parte da sua fase adulta quando se transformou em um dos maiores cantores da história da música.
Quando a narrativa inicia vamos direto para 1966 em um momento crucial na vida de Michael (versão jovem Juliano Valdi) e seus irmãos, encontramos o pai linha dura Joseph Jackson (Colman Domingo) ensaiando com grupo de forma exaustiva com uma disciplina militar para acertarem os passos e o tom da música.
É neste ponto que entendemos que este filme é uma cinebiografia clássica, que não inventa, mas tem como apelo contar simplesmente a história do Rei do Pop sem entrar muito em polêmicas, mas focando na trajetória do garoto precoce com uma voz absurdamente boa que precisa carregar o peso de ser a oportunidade de uma vida melhor para sua família.

Fica nítido que o roteiro assinado por John Logan (007 – Operação Skyfall) entrega uma história que foi feita para emocionar e o público crescer junto com uma trama que é cheia percalços mostrando uma relação abusiva entre Michael e seu pai, e como em meio ao sonho de ficarem famosos moldou a personalidade introvertida pensante de um menino que amava música, sonhava com as histórias de “Peter Pan”, porém detestava sua figura paterna com a mesma intensidade.
É importante salientar que “Michael” é um filme mais limpo, sem polêmicas, sem aprofundar muito em temáticas raciais, focando no apelo universal e mais na figura do ícone que claramente tinha um potencial diferente enxergado pela gravadora Motown Records que assinou com o grupo “Jackson 5” se tornando um fenômeno instantâneo entre os anos 60 e 70 anos.
O longa é dinâmico, com um drama dosado e uma sobreposição de músicas que fizeram Michael Jackson o fenômeno que é hoje. Então para você que está com receio de ver uma biografia que tende a se basear na desconstrução de um astro, sinto lhe dizer que este filme aqui faz exatamente o contrário servindo como um lindo tributo a todo legado construído pelo Rei do Pop.
Em pouco mais de duas horas e cobrindo três décadas da vida do cantor, vemos uma pessoa talentosa enquanto criança, com pouco espaço para ser criança até chegar na fase adulta focando na sua fantástica carreira solo e como aos poucos vai se cercando de gente poderosa para servir de escudo aos constantes abusos do pai opressor que funciona basicamente como uma figura vilanesca.

A verdade é que “Michael” é um filme cuidadoso, daqueles que emociona pelos motivos certos e faz a plateia imergir numa vida que parecia fácil, mas que na verdade foi árdua com o astro tentando encontrar a própria voz e principal, a própria essência, algo que constantemente repete em diversas linhas de diálogos.
Este fator funciona por conta da escolha de Jafaar Jackson como a versão a adulta de Michael, sobrinho na vida real do astro do pop, o garoto entrega imensamente num papel que exige jogo de cintura e desenvoltura. Todos os trejeitos, nuances, composição de voz são executados por maestria por Jackson, e dependendo do ângulo da câmera, parece que estamos vendo o próprio Michael em carne e osso.
O filme ganha corpo e potência com a presença de Jafaar em cena elevando as sequências de música que cobrem desde o álbum “Off The Wall” e terminando com a obra-prima “Thriller”, considerado por muito um dos melhores álbuns de todos os tempos. A forma como Fuqua se aproveita da edição rápida para trazer nostalgia ao público fica bastante clara na cena de composição da clássica música “Beat it”, quando Michael ensaia com gangues opostas numa sequência memorável, mostrando a veia criativa do astro.

E o fato é que “Michael” não para por aí, cada vez que toca uma batida conhecida de alguma música do rei do Pop, automaticamente você quer dançar, pular e vibrar numa experiência que vale assistir no cinema, pois o filme principalmente na reta final entende a figura global de Michael Jackson e se apoia nisto para entregar uma narrativa que senão é perfeita, fica muito perto de um espetáculo.
O legal deste tipo de cinebiografia é saber algumas curiosidades que aqueles que não acompanhavam com afinco esta figura icônica não sabia o que aconteceria. Cenas como a conversa com empresário da CBS para Walter Yetnikoff (Mike Meyers) para conseguir que suas músicas tocassem na MTV (que na época barrava vários artistas negros de se promover no canal), ou a sequência do show quando o cantor sofre um acidente grave no palco quando seu cabelo pega fogo o deixando com queimaduras durante uma sequência pirotécnica.
O filme ainda guarda outros momentos de drama ao trazer a consistente atuação de Colman Domingo (Sing Sing) como a figura antagonista de Joe Jackson, que claramente exerce uma influência que impede muitas vezes alcançar seu potencial ao usar o amor dele pela família para lucrar em cima do sucesso do cantor.

É impossível não vibrar no terceiro ato quando um momento crucial entre pai e filho chega o seu ápice e vemos um Michael livre iniciando um novo ciclo já no final dos anos 80. Este tipo de catarse faz deste longa um filme imperdível se você é fã, não fã, ou simplesmente sabe a imensa importância de MJ para a indústria da música influenciando gerações de cantores que copiavam seu estilo a exaustão.
De uma forma geral, “Michael” é um bom filme, talvez falte aprofundar mais na relação com os irmãos (estranhamente Janet Jackson não é retratada a pedido da própria cantora) e com a mãe (Nia Long), é um filme que foca no conflito com pai, mas poderia ter explorado estes momentos. Ainda assim, o longa é daqueles imperdíveis que faz cada cena valer a pena deixando aquele gostinho de quero mais (Parte 2 vem ai?). Quando os créditos começam a subir, a emoção impera e dá aquela vontade de repetir a experiência.
Gostou? Veja o trailer abaixo e diga nos comentários o que achou do filme.


