Tecnicamente impecável, este novo longa marca a primeira vez de Steven Spielberg com musicais e o resultado é uma obra visualmente linda, até certo ponto bem atuada, mas que ainda não tem o fervor de um grande musical.
| 7 Indicações ao Oscars 2022 Vencedor de 1 oscar |
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| Melhor Atriz Coadjuvante – Ariana DeBose |

O que faz um filme clássico ser um clássico? Uma boa direção, boas atuações, uma história cativante que transcende épocas? Acredito que seja tudo isso e mais um pouco. Quando se assiste um grande filme, você nota se ele tem potencial para ser um clássico ou não, seja qual gênero ele pertença. Ainda que cercado de polêmicas, a versão de 1961 de “Amor, Sublime Amor” é considerada um clássico, ganhou melhor filme e outras nove categorias no Oscars de 1962 e ainda se tornou referência de sucesso para outros musicais que vieram depois.
Porém não estou aqui para falar do passado, mas sim do presente, ok um pouco do passado, mas você entenderá aonde quero chegar. O diretor Steven Spielberg (The Post: A Guerra Secreta) é um dos melhores diretores da história do cinema, disso não temos dúvida, um cineasta completo que transitou entre vários gêneros e foi bem sucedido em quase todos, porém nunca tinha dirigido um musical mesmo tendo um extenso currículo de grandes e marcantes filmes.
Eis que chegou a oportunidade de o diretor fazer seu musical, mas não qualquer musical, e sim o remake de “Amor, Sublime Amor” (West Side Story, 2022) da 20th Century Studios que agora chega ao Disney Plus e é a tentativa de corrigir alguns erros da versão original. A história é uma adaptação de uma peça da Broadway de 1957 de mesmo nome que conta a história do amor proibido de um casal e a rivalidade entre duas gangues de rua, os Jets e os Sharks, que lutam entre si pela dominância desse bairro de Nova York.

O primeiro ato do filme começa estabelecendo exatamente esse antagonismo entre esses dois grupos, com ênfase na xenofobia explicita sofrida pelos Sharks, que são compostos por descendentes e por nativos porto-riquenhos. Nesta primeira sequência é onde vemos o primeiro número musical tomar forma e onde Spielberg estabelece o tom que vai dar para o resto da história.
Confesso que esse início não me pegou, achei muito estranho e abrupto, a sequência musical simplesmente não funcionou para mim. O filme ganhou minha atenção mesmo quando somos levados a sequência do baile, inclusive é neste ponto que a mão de diretor de Spielberg faz transparecer sua genialidade na direção com uma sequência praticamente sem cortes da câmera seguindo seus protagonistas até chegar numa belíssima cena na quadra da escola onde vemos uma sequência de música muito bem coreografada.
Neste ponto, a maestria da direção se junta a eficácia da fotografia e os aspectos técnicos do musical começam aparecer no filme. A narrativa a partir dai segue a história do casal Tony (Ansel Elgort) e Maria (Rachel Zegler), ele um branco caucasiano ex-membro da gangue dos Jets liderada pelo seu melhor amigo Riff (Mike Faist), ela porto riquenha irmã de Bernardo (David Alvarez), líder dos Starks e namorado da bela Anita (Ariana DeBose).
Ao beber da fonte shakespeariana, esta trama com ecos de “Romeu e Julieta” se passando em Nova York, cria uma atmosfera de tensão que nunca chega a ganhar força numa narrativa que tem dificuldade de não só estabelecer uma química consolidada entre o casal principal, mas também uma rivalidade mais intensa entre Jets e Sharks. O roteiro de Tony Kushner (Lincoln) é feliz em trazer a latinidade de Porto Rico para narrativa e o sério problema enfrentado pelos imigrantes nos EUA, não só para se estabelecer, mas também para encaixar entre os cidadãos norte-americanos.
Por outro lado, sinto que falta o fervor de um grande musical para “Amor, Sublime Amor”, algo que sobra, por exemplo, no recente “Em Um Bairro de Nova York”. É claro que Spielberg consegue dirigir bem as ótimas sequências musicais do longa, mas as músicas na minha visão não encantam, apesar de serem bem coreografadas e até bem cantadas. E aí que encontramos mais um problema, Ansel Elgort (A Culpa é das Estrelas) como protagonista, o ator parece estar em outra frequência, não consegui ver muita química entre ele e Rachel, talvez no terceiro ato, mas ainda assim bem pouco.
O resto do elenco é esforçado, gosto da atuação de Mike Faist (The Atlantic City Story) no papel de Riff, ele parece um cara saído dos anos 60 mesmo, até a voz soa como um jovem dessa época. Rachel Zeller (Shazam: Fúria dos Deuses) prá mim é uma boa surpresa, a voz dela é doce, sua inocência ajuda vender bem sua personagem, uma mulher em busca de mais liberdade e viver um grande amor. O elenco ainda conta com nomes como Corey Stoll (Homem-Formiga), Brian d’Arcy Adams (Spotilight: Segredos Revelados) e é claro Rita Moreno (Um Dia de Cada Vez), a única do elenco do filme original que retornou para uma personagem nova neste filme.

De todos que destaquei, nenhuma chega no nível de comprometimento de Ariana DeBose (A Festa de Formatura), a atriz que interpreta a vigorosa e vibrante Anita, traz exatamente a energia que queria ver permeando em todas as partes de “Amor, Sublime Amor”, ela canta, dança e tem uma veia dramática incrível na reta final. DeBose veio do teatro então está acostumada a grandes musicais e aqui encontra o equilíbrio perfeito e a força necessária para dar complexidade a uma personagem que não só precisa superar a xenofobia junto com seu amado, mas também precisa lidar com racismo por ser negra.
A parte técnica do longa, como mencionei, é impecável. Além da direção bastante segura de Steven Spielberg, a fotografia se destaca com enquadramentos que dão todo um charme para a história, além da trilha sonora que casa bem com atmosfera sóbria e melancólica que o filme tem. Os figurinos e o design de produção, são um deleite aos olhos, todos acentuados com os números musicais complexos e bem coreografados, com destaque para sequência de “América”.
No geral, dizer que “Amor, Sublime Amor” é um filme ruim, seria hipocrisia da minha parte, na verdade o filme é muito bom, mas não é grande filme como deveria ser. A direção de Steven Spielberg e o roteiro acertam na parte da inclusão e na diversidade, além de trazer a juventude rebelde com força total na narrativa, mas falha ao capturar de forma mais emblemática o romance que é o cerne da história. O terceiro ato é chocante e melancólico para quem não conhece a história, e talvez deva surpreender. Ainda assim, como musical, falta vigor e energia para esta narrativa que tecnicamente é incrível, mas que no final das contas lhe falta substância para ser consolidada como um grande clássico.

Elo Preto
Atriz: Ariana DeBose
Personagem: Anita
Idade: 31 anos
O destaque da coluna de hoje, vai para atriz norte americana Ariana DeBose, além de atuar, ela canta, então não foi a toa que roubou a cena neste musical de Steven Spielberg, sua Anita é uma mulher elétrica, com fulgor latino que encanta e uma personalidade que hipnotiza. Ariana consegue se destacar tanto nos números musicais, quando nas cenas de drama, inclusive a cena em que ela divide com Rachel Zegler é um dos pontos altos do filme. Filha de uma mãe branca e pai negro porto-riquenho, a atriz está encantando Hollywood e levando vários prêmios seguindo a trajetória para levar seu primeiro Oscar. Seu próximo grande projeto vai ser o filme da Sony/Marvel, “Kraven The Hunter”.
Gostou? Veja o trailer abaixo. Se já assistiu ao filme, diga o que achou nos comentários abaixo também.

2 comentários sobre ““Amor, Sublime Amor” – Crítica”