Ação, bagunça narrativa e entretenimento meia boca. A série reboot do filme protagonizado por Denzel Washington, agora protagonizado por Yahya Abdul-Mateen II, cai em estereótipos e previsibilidades, mas possui alguns momentos que vale a investida.

Quando Hollywood opta por fazer reboot, ao invés de remake, as vezes a decisão é acertada, mas nem sempre quando se muda de formato, de filme para série, por exemplo, o resultado é exatamente positivo. Estou falando isto, por conta da nova série da Netflix “Homem em Chamas” (Man on Fire, 2026-Presente), que serve como reboot do filme protagonizado por Denzel Washington em 2004 chamado de “Chamas da Vingança” e que em inglês mantém o mesmo título e se chama “Man on Fire” dirigido pelo falecido diretor Tony Scott.
O seriado protagonizado por Yahya Abdul-Mateen II (Marvel’s Wonder Man), apenas pega parte da premissa do filme de Washington, mas inverte o texto, que ao invés de ser uma trama de sequestro e resgaste, se torna uma trama sobre vingança depois de uma tragédia que coloca o John Creasy (Yahya), um ex-agente que sofre de traumas do passado, que é recrutado por seu amigo Paul Rayburn (Bobby Cannavale) para uma missão no Rio de Janeiro, Brasil.
A história criada por Kyle Killen (Rua do Medo: 1994 – Parte 1) não é pautada por sutileza, mas tem um piloto que chama atenção em um episódio que mostra Creasy tentando superar uma missão fracassada, ao tentar se conectar com Rayburn e sua família acabando por se ver no meio de um incidente que o coloca no centro de uma conspiração que ceifa a vida de seu amigo e sua família, deixando a jovem Poe (Billie Boullet) órfão sobre os cuidados do quebrado agente.
É nesta linha que “Homem em Chamas” vai se moldando como uma série que mostra Creasy obstinado em descobrir quem está por traz dos atentados que mataram seu amigo e quem foram os mandantes. A narrativa tem um ritmo bastante consistente no começo, mas infelizmente é muito enfraquecida exatamente por estereotipar muito os personagens brasileiros de forma que se encaixem na visão ocidental dos estrangeiros em relação a como enxergam o Brasil.

Se você quer ver uma série norte americana fiel, que retrate os brasileiros sem cair no maniqueísmo, não foi desta vez, mesmo tendo personagens como Valeria Melo (Alice Braga), o misterioso Prado Soares (Thomás Aquino) e os jovens Vico (Iago Xavier) e o Livro (Jefferson Baptista) como destaque coadjuvante que gira em torno da figura de Creasy e sua protegida Poe, mergulhando em cenários paradisíacos e também nas favelas cariocas onde boa parte da trama se passa.
A barreira da língua é um problema aqui, mas pelo menos não ficaram enfiando espanhol em muitos momentos da trama, tendo várias linhas diálogos em português que as vezes parecem que estamos vendo uma série brasileira. Os episódios 2 e 3, ajudam a desenvolver a trama, que é pautada no clichê com um protagonista que empolga pouco, sendo as vezes ofuscado por personagens menores.
A história só melhora mesmo quando a trama chega na sua primeira reviravolta no episódio 4, quando os arcos se fecham, os vilões são revelados e a sensação de que estamos vendo um final antecipado é inevitável, com boas sequências de ação e resoluções que abrem a narrativa para uma conspiração maior.

As vezes sinto que falta em “Homem em Chamas”, deixar seu protagonista acontecer, John Creasy as vezes soa deslocado e só não cai no marasmo, porque Yahya Abdul-Mateen II tem presença de tela nas cenas de luta e se esforça para se encaixar numa narrativa que nem sempre sabe o que fazer com seu próprio ator principal. Isso melhora na segunda metade, mas fica a impressão que dava para ser melhor.
O fato é que o seriado se o público não levar tantas coisas a sério e assistir só pelo entretenimento, sem ficar reparando nos furos e saídas óbvias, muitas vezes inverossímeis, acaba se divertindo com cenas de ação violentas, sem pudores com torturas e sangue falso rolando a rodo numa narrativa que não para com episódios que passam rápido e bons ganchos de um para outro.
A verdade é que “Homem em Chamas” cai um pouco entre os episódios 5 e 6, mostrando que tudo poderia ter sido resumido em seis episódios, sete pareceu um pouco demais, porém a reta final tem sequências movimentadas que até justificam a quantidade de episódios, mas infelizmente não escapa de suas imprevisibilidades e resoluções clichês.

Ainda assim, vale o investimento? Depende, o seriado tem sim suas ressalvas, mas pelo menos assistir para ver Alice Braga (Matéria Escura) e Thomás Aquino (Guerreiros do Sol), além de outros rostos conhecidos da nossa dramaturgia tendo destaque numa produção gringa que até diverte apesar de cair nos clichês do gênero, não é um tempo perdido.
O último episódio de “Homem em Chamas” resume uma série que não tem medo de criar tensão e emoção, mesmo que não surpreenda, talvez valha assistir por ser um thriller sem pausas. Infelizmente a química que fez o filme de Denzel Washington e Dakota Fanning lá em 2004 um sucesso, não se repete entre Yahya e Billie Boullet que é muito pouco aprofundada. No meio das conspirações governamentais que a trama acaba se pautando, gera um interesse inicial, porém não sei se será suficiente para que a série ganhe uma sobrevida e uma possível segunda temporada, somente o tempo dirá se o público vai querer mais das aventuras de John Creasy.
Gostou do texto? Comente sobre a série abaixo e veja o trailer da primeira temporada.


