Uma nova era de jovens pretos na faculdade. A continuação da série de sucesso nos anos 80, volta com uma nova geração e a vontade de marca época para jovens pretos dos EUA e talvez conquistar o mundo.

No mundo das séries, existe vários tipos que são universais para todos os públicos e são essas que normalmente figuram entre as mais lembradas nos rankings de listas especializadas. Porém existe séries que não tem essa ambição e são nichadas para um tipo de público. As séries para o público preto norte-americano são exatamente assim, mas existe uma brecha que ainda tornam acessíveis para o público negro global, e é a forma como abraça a negritude.
Nos anos 80, houve uma proliferação de séries para o público negro estadunidense que formou toda uma geração de negros norte-americanos culturalmente influenciando no seu estilo e na forma de consumo. “Um Mundo Diferente” (A Different World, 2026-Presente) é uma dessas séries que ganhou continuação pela Netflix e fez muito sucesso nos anos 80, e tenta agora reproduzir o sucesso cultural com uma nova geração de jovens pretos frequentando a famosa Universidade Hillman, palco da série original.
Assim como todas as produções que se apoiam em nostalgia, este seriado usa o elenco original para fazer a transição para nova geração. Desta forma temos o retorno de Dwayne Wayne (Kadeem Hardison) como diretor da Universidade Hillman agora casado com Whitley Gilbert (Jasmine Guy), ambos são pais de Deborah Wayne (Maleah Joi Moon), que está entrando para Universidade e tentando achar seu próprio caminho e fugir do legado famoso dos pais.
Outros integrantes do elenco principal desta nova geração são: Shaquille Johnson (Cornell Young IV), estrela do futebol americano na faculdade e filho do personagem original Ron Johnson (Darryl M. Bell). A jovem Rashida Duvall (Alijah Kai), Amir Rodale (Jordan Aaron), Hazel Henry (Kennedi Reece) e Kojo Achebe (Chibuikem Uche) completam sexteto principal que entram para esta Universidade majoritariamente composta por pessoas pretas enfrentando os desafios da idade.

Assim como a versão dos anos 80, esta nova versão de “Um Mundo Diferente” explora a juventude negra em todos seus aspectos, seja através dos dilemas amorosos, dilemas nos estudos, dilemas políticos que começam a tomar forma nos dois primeiros episódios “Irreconcilable Different” (1×01) e “O Captain! My Captain” (1×02) que as vezes parecem cheio de informação, mas são suficientes para apresentar os personagens.
O fato é que a grande dificuldade da série criada por Felicia Pride é conseguir equilibrar passado e presente, trazendo uma personalidade atual para uma série que vem para apresentar uma nova geração de estrelas. Sai o aspecto sitcom com piadas e risadas ao fundo, entra uma comédia dramática que é antenada com presente, colocando os problemas financeiros sofridos pela Universidade Hillman para engajar os estudantes em uma causa maior.
A série consegue até intercalar bem os romances entre os personagens Deborah e Shaquille, além das idas e vindas de Rashida e Kojo, ambos romances desenvolvidos durante a temporada. Temos também Hazel percorrendo sua trajetória de se dar bem no meio acadêmico, bem como Amir sendo o único gay do grupo a ter sua própria trama se envolvendo com o interesse romântico da melhor amiga, tendo um caso com Jalen (Elijah J. Roberts).
O interessante aqui é que a série não só explora negritude hetera, mas também a negritude LGBT, que normalmente é bastante escondida nas comunidades negras norte americanas. O seriado faz questão de mostrar Amir como um gay de personalidade que sabe o que quer e que é respeitado pelos amigos mostrando um lado liberal das séries negras que poucas vezes é vista em tela.

A produção também aprofunda muito no senso de comunidade que esses personagens tem, mesmo que os conflitos sejam constantes, rivalidades, brigas, reconciliações movimentem uma trama que só fica melhor entregando episódios bacanas como “Those Who Can… Cuff” (1×04) e “Insomnia and The Daydreamer” (1×06), ambos falando sobre política para universidades negras e também sobre as vulnerabilidades de serem pessoas negras em um país conservador.
É claro que “Um Mundo Diferente” não é uma série que fica apenas nesse aprofundamento político, em muitos momentos ela é intencionalmente rasa para mostrar como esses personagens se interagem, como passam perrengue do dia-a-dia e como encontram na amizade de uns aos outros para superar os obstáculos na vida, ou as vezes apenas para passar um dia comum na faculdade.
Em termos técnicos, existe um capricho estético muito bom com uma trilha sonora matadora misturando o melhor do Hip Hop, Rap, R&B (Oi Summer Walker) e Pop. O roteiro traz participações pontuais de outros personagens originais como Freddie Brooks (Cree Summer) que retorna como professora na universidade, Lena James (Jada Pinkett), o agora senador Byron Douglas III (Joe Morton) e a Dra Langhorne (Debbie Allen) para citar alguns rostos conhecidos que entram e saem da trama de forma orgânica dando suporte para o núcleo principal enquanto agrada os antigos fãs que podem rever seus personagens favoritos de volta.

Existe um cuidado na obra e uma vontade em fazer história novamente para o público norte americano e talvez seja uma oportunidade de expandir isso para um público mais global devido ao alcance do catálogo na Netflix. Eu como pessoa preta confesso que adorei muitos aspectos dessa série por mostrar muito do que é ser negro, da beleza negra, da vivência negra entre os seus, difícil até não se sentir em casa vendo esta série.
É claro que em termos de história é legal como a dinâmica do seriado é leve e convidativo com ares de série representativa que convida o expectador a rir, se emocionar e fazer parte dessa comunidade em Hillman. Isso fica muito claro nos episódios “Center Stage” (1×03) e “I Choose Chaos” (1×08) como Deborah e seus amigos independente das diferenças, são um grupo inseparável e agradável de assistir.
Isso se deve muito ao talento dos atores Maleah Joi Moon e Cornell Young IV (Para Sempre) que tem uma química tremenda em tela formando o casal principal. Isso se estende a belíssima Alijah Kai e ao ótimo Jordan Aaron (Rustin). Sem falar nos talentos de Kennedi Reece e Chibuikem Uche, que fecham o grupo mostrando uma sintonia muito boa.
Na ala dos veteranos vale o destaque para Kadeem Hardison (Homens Brancos Não Sabem Enterrar) voltando a viver Dwayne Wayne e Jasmine Guy (Harlem) no papel de Whitley Gilbert, com certeza deve resgatar a nostalgia de muitos fãs da série original. A série aproveita e cobre a narrativa com muitos easter eggs a começar pelos óculos com duas lentes usado pela protagonista em uma clara referência aos óculos usados pelo pai.

É nesta pegada que esta obra se torna uma das principais narrativas pretas para o público jovem da atualidade. A Netflix já trouxe a excelente “Para Sempre” no ano passado focado no público preto e aproveitando o fim da sitcom “Família Upshaw”, temos aqui uma comédia dramática que emociona e merece ser vista, principalmente quando se rende ao velho romance nos últimos episódios da temporada com o bons “Romancing The Unknown” (1×09) e o movimentado final de temporada “A Gift & the Curse” (1×10).
Por tudo que foi falado, “Um Mundo Diferente” estreia sua primeira temporada muito bem explorando a negritude em sua plenitude com lindos jovens negros enfrentando os dilemas da faculdade e tentando moldar seu próprio futuro. Culturalmente a série é rica, tem uma abertura maravilhosa e aprofunda em temáticas pertinentes ainda que se mantenha leve e romântica. Com a segunda temporada garantida, a série dá um pontapé inicial misturando nostalgia e novidade num produto feito para o público preto, mas que claramente irá conquistar vários públicos devido ao seu espirito jovial e autêntico.
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