“Lanternas” – 1° Temporada – Crítica

DC apresenta seu lado verde. A nova série da HBO adaptada dos quadrinhos traz a tropa dos Lanternas para DCU em uma série densa, bem desenvolvida com uma forte aura racial e um elenco talentoso liderado por Aaron Pierre e Kyle Chandler.

SPOILERS PESADOS ABAIXO

Foto/Reprodução – DC Studios/Warner Bros

Existe uma incógnita sobre a melhor forma de adaptar histórias em quadrinhos para outras mídias. Com esse turbilhão de adaptações e décadas do “boom” que começou no começo dos anos 2000, temos conteúdos hoje padrão blockbusters seja no cinema, seja na TV com a proliferação dos streamings. Enquanto a Marvel foi mais bem sucedida no cinema, nem tanto no Disney Plus, a DC Studios tenta se reerguer sobre a batuta de James Gunn e Peter Zafran com o novo universo denominado DCU pavimentando essas duas mídias com filmes, séries e animações.

Enquanto o novo “Superman” dirigido por Gunn foi um sucesso para Warner Bros, “Supergirl” amargou um fracasso de bilheteria e uma recepção morna neste ano no cinema, que pode ser resgatado pela estreia do estranho filme “Cara de Barro”. No quesito série de TV, tivemos a segunda temporada de “Pacificador”, o desenho “Comando das Criaturas” e agora para expandir o universo ainda mais, “Lanternas” (DC’s Lanterns, 2026-Presente).

A série criada por Tom King, Damon Lindelof (The Leftovers) e Chris Mundy (True Detective) conta a história de John Stewart (Aaron Pierre) e Hal Jordan (Kyle Chandler), o primeiro escolhido pelos Guardiões responsável por selecionar Lanternas Verdes pela galáxia, o segundo um super-herói veterano responsável por proteger o setor da galáxia onde se encontra a Terra.

Os quadrinhos do Lanterna Verde foram criados em 1940, com a primeira aparição sendo All-American Comics Volume 16. Desde então várias versões se popularizaram na imaginação dos fãs da DC, sendo Hal Jordan e John Stewart, ambos os mais populares.

Foto/Reprodução – DC Studios/Warner Bros

A série com selo HBO que foi exibida semanalmente no HBO Max e chegou ao fim no último domingo dia 4 de outubro, é uma aventura que mistura drama e mistério numa trama que se desenvolve e traz uma vibe de série de detetive e “body cop” bastante marcante ao focar na relação conturbada entre John e Hal.

O episódio “Piloto” (1×01) começa com a dupla no meio de uma jornada para chegar na cidade de Rushville no interior dos EUA com a missão de investigar um suposto evento extraterrestre dando o tom que a série quer seguir favorecendo um clima de mistério com um lado mais fantástico meio acanhado com Hal Jordan sendo um famoso super-herói em atividade que treina seu sucessor para assumir o manto do Lanterna Verde.

Sinceramente, esta pegada de “Lanternas” é crucial para nos interessarmos por uma trama que se preocupa muito com o desenvolvimento de seus protagonistas, ao mesmo tempo que faz o público embarcar numa teia de eventos que acaba se revelando uma verdadeira caçada a um inimigo que parece invisível, o que torna os cidadãos desta pacata cidade bastante suspeitos.

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A série se mantém consistente no episódio “Trust Fall” (1×02) explorando uma trama que também traz uma pegada intergaláctica que infelizmente é bastante contida numa clara limitação de orçamento. Na minha humilde opinião, a série dá um salto de qualidade em “OutKast” (1×03) que é focada inteiramente em John Stewart num episódio dirigido por Stephen Williams (Watchmen) que já entregou outros episódios memoráveis em séries da HBO.

É nele que a temática da negritude, racismo e resistência preta é misturada a origem de um personagem que foi criado pelos pais para não ter medo, numa clara alusão ao que é ser preto num EUA onde o racismo ainda é assustador e o medo se espreita a cada esquina para quem tem a pele escura. Aqui, serve de ponto de ignição para os pais de John cria-lo de forma ser aceito pelos Guardiões ou seria Guardiã (Laura Linney) para se tornar o próximo Lanterna Verde.

Foto/Reprodução – DC Studios/Warner Bros

O fato é que esse episódio causou bastante polêmica online, mas ele é genial em mostrar como toda esta criação torta tornou John a pessoa que é naquele presente. É bom destacar que a trama também se passa em duas linhas temporais diferentes, sendo que a cada episódio volta em um tempo diferente preenchendo lacunas de 10, 20 ou 30 anos do presente de 2026, trazendo novas informações e revelações sobre os personagens.

Entrando no território dos spoilers, o assassinato de Hal Jordan revelado no início da série é o ponto de partida para o público embarcar nesta trama que vai se afunilando revelando a existência de um ser poderoso, um Caçador Cósmico que está puxando as teias de uma narrativa que só fica melhor a cada novo capítulo, vide o ótimo episódio “The Weenie” (1×04).

Uma coisa que estava sentindo em “Lanternas” era o fato que a série funcionava muito a conta gota em se tratando de ação, mesmo com uma tensão crescente e boas sequências frenéticas com Hal ou John usando o anel de poder para criar os construtos (formas moldadas de acordo com o desejo do usuário do artefato), deixa o expectador curioso para ver mais, afinal estamos falando de uma série de super-heróis.

Os conflitos entre Hal e John se intensificaram muito no decorrer da série indo da amizade e irmandade, a uma rivalidade extrema culminando no caos e talvez melhor episódio da temporada “Lights Out” (1×05), com sequências de ação de tirar fôlego, com efeitos visuais decentes, mesmo que não muito impressionantes, mas afirmando que a série em termos de escopo e escala de grandiosidade, consegue entregar bem.

Foto/Reprodução – DC Studios/Warner Bros

Porém, algo que sinto falta no seriado é o fato dele nunca abraçar o bizarro, nem mesmo quando a identidade do caçador cósmico é revelada, ou seria caçadora? Ou quando Guy Gardner (Nathan Fillion) aparece fazendo a ponte com o resto do universo compartilhado do DCU criado por Gunn, ou quando Sinestro (Ulrich Thomsen), o vilão mais perigoso dos quadrinhos da Tropa dos Lanternas Verdes aparece.

Falta aqui abraçar o brega, o bizarro e principalmente, o cósmico. As cenas de voo dos personagens são maravilhosas, mas falta aquele senso vastidão, falta aquela emoção de estar vendo algo empolgante. Sinto que a série é bastante linear e cresce muito ao estabelecer um contraponto perfeito entre o cara sem medo no papel do John, do cara que nunca precisou ter medo no papel de Hal.

Os coadjuvantes são até bons, com destaque para Xerife Kerry Kane vivida pela atriz Kelly Macdonald (Boardwalk Empire), a mãe de John, Bernadette Stewart vivida pela atriz Jasmine Cephas Jones (Origin), sem falar nas participações de Laura Linney (Ozark), Garret Dillahunt (Fear The Walking Dead) e Paul Ben-Victor (Monstro), dando peso a construção dos protagonistas.

Depois das reviravoltas do episódio cinco, a narrativa volta seus olhos para o presente com os três últimos episódios focados na pós morte de Hal Jordan (que ainda acho uma má decisão). O episódio “Bad Optics” (1×06) não tem pressa de mostrar que a série tinha muito gás para queimar com boas revelações e um John Stewart cada vez mais protagonista da narrativa.

Foto/Reprodução – DC Studios/Warner Bros

A série mostra novamente a que veio no excelente episódio “The Jordan Boy’s Legacy” (1×07), que assim como o episódio 3 sintetiza a aura predestinada de John, este mostra que Hal estava destinado a ser um grande herói mesmo com falhas mostrando também uma atuação magnífica de Kyle Chander (Friday Night Lights) trazendo humanidade para um personagem bastante complexo.

O que faz “Lanternas” da DC uma série que merece ser conferida, é esta preocupação com a construção de personagens, é neste ponto que atuações boas como de Aaron Pierre (Rebel Ridge) que parece que nasceu para o papel de John Stewart trazendo um protagonismo preto bem vindo com aura difícil de não farmar como já dizia a geração jovem atual.

Por outro lado, a série ainda sofre com a questão de limitação de orçamento o que é estranho até para uma série da HBO, casa de séries pomposas como “A Casa do Dragão”. A estética é um pouco irregular entre o visual anêmico do meio oeste americano e o visual pouco fantásticos dos planetas e dimensões que aparecem. A produção é até caprichada, mas falta algo que mostre a ambição de um universo em construção, mesmo que em muitos momentos venha salpicado de easter eggs e referências as HQs.

E por este motivo e por tudo que foi falado, “Lanternas” é uma série que podemos dizer que é correta, bem acabada, possui algumas boas sequências de ação e atuações sólidas. Porém o último episódio da temporada “Dirt and Stars” (1×08) se mostra aquém do esperado, intercalando entre as boas revelações com ênfase sobre o assassinato de Hal, com outras que parecem mais do mesmo.

Foto/Reprodução – DC Studios/Warner Bros

Fica claro que Damon Lindelof, Chis Mundy e Tom King queria uma pegada mais sóbria com efeito mais voltado para o drama frente ao espetáculo visual dos filmes de super-heróis atuais. Se por um lado isso é excelente em termo de material dramático, por outro deixa um pouco a desejar em termos de construção de um universo de super-herói. Ainda assim, o futuro com John Stewart parece promissor (o personagem irá retornar no filme “Man of Tomorrow” continuação de Superman que estreia nos cinemas ano que vem) e deve ser celebrado.

Se gosta de uma boa história, bons personagens e sequências de ação pontuais, então “Lanternas” é a série para você, ainda mais por tocar em temas atuais que vão desde imigração (a trama alienígena traz um pouco disso), passando por questões raciais e sociais, terminando falando sobre amizade, confiança e lealdade. Faltou explorar o lore da Tropa dos Lanternas Verdes que ficaram muito coadjuvantes nesta narrativa, mas que mostraram um potencial imenso para entregar grandes eventos dentro desse novo Universo DC. Aguardemos os próximos capítulos e um pouco mais de ousadia dos roteiristas.

Gostou? Veja o trailer abaixo e comento o que achou da temporada nos comentários.

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