A melhor seleção do mundo! A minissérie nacional produzida pela Netflix, entrega uma narrativa que reconta a trajetória do Tri, que mostra entretenimento, mas não escapa da superficialidade quando tenta dramatizar o evento.

A Copa do Mundo é o maior evento do mundo, movimenta culturas, empolga nações e nos faz sonhar em estar no topo deste esporte chamado futebol. O Brasil é referência máxima aqui, com cinco títulos e o único a atingir esta marca, é sempre a seleção a ser batida. Estamos neste exato momento em plena competição que está rolando nos EUA, Canadá e México, ou seja, estamos assistindo jogos e vibrando sonhando com o Hexa da nossa seleção.
O Brasil é popular no esporte, mas tudo começou por conta da conquista do tricampeonato mundial de 70 e consagração de Pelé. Este é o tema da minissérie da Netflix, “Brasil 70: A Saga do Tri”, uma produção criada por Rafael Dornellas e Naná Xavier, conta a história dos jogadores desde o começo da Copa até chegar na grande final com a conquista da mesma.
O seriado é focado principalmente em Pelé (Lucas Agrícola), liderando uma seleção de estrelas que tinha inicialmente como técnico João Saldanha (Rodrigo Santoro), e posteriormente por Zagallo (Bruno Mazzeo). A trama dramatiza os eventos focando nos principais desafios da equipe para passar por adversários marcantes e complicados, mostrando que a trajetória até a vitória ainda teve seus desafios.
O primeiro episódio “Pelé, jogai por nós” (1×01) é focado na figura central desse evento, Pelé, o maior jogador de futebol de todos os tempos sentiu o peso da eliminação precoce em 1966 após uma grave lesão, estava num dilema para voltar a atuar na seleção. A série faz certo em focar no líder desta geração, pois o Rei do futebol era figura icônica e na narrativa é o personagem com mais carga emocional para manter o expectador curioso.

A série entrega uma produção caprichada, bem desenvolvida, com uma fotografia solar e abusando dos ângulos de câmeras para colocar o público no meio das partidas. Sem falar que a direção dupla de Quico Meirelles e Paulo Morelli serviu para trazer não só o ponto de vista dos jogadores, mas também das famílias deles e dos torcedores mostrando o verdadeiro peso do que era essa Copa do Mundo para seleção brasileira.
A Netflix não poupou despesas, claramente o dinheiro injetado serviu para trazer tomadas mais abertas completadas por efeitos visuais de primeira, sem falar num certo cuidado com figurino e ambientação, com um uso grande figurantes para compor todo o cenário visto em 1970.
Quando o episódio “Os 11 de Zagallo”(1×02) entra em cena, vemos uma narrativa que sabe usar seu aspecto técnico principalmente com uma edição estilizada para trazer emoção para os jogos. É interessante como as figuras de João Saldanha e Zagallo são eixos opostos num período que ainda trazia tensão dentro do Brasil, afinal estávamos em plena ditadura militar.
O que entra no ponto que a série ameniza bastante o aspecto político que poderia ter sido o grande trunfo da história. Ao invés existe aqui uma escolha segura que não ultrapassa a linha da influência negativa dos militares no dia-a-dia da seleção e nos passos dados pelo Rei do futebol. Infelizmente entendemos que existe uma tensão no ar, mas ela nunca é evidenciada realmente, apenas pelo semblante de aflição dos jogadores e comissão técnica, além e uma subtramas aleatórias com a esposa do Saldanha.

A verdade é que “Brasil 70: A Saga do Tri” é uma trama bastante chapa branca que só não merece ser descartada, porque a história desta seleção é muito maior do que todo aspecto serializado ao redor dela. É nos momentos de euforia como no episódio “Que Rei sou eu?” (1×03) que entendemos o quanto a narrativa é dinâmica e focada na parte que mais interessa, o futebol praticado pela melhor seleção do mundo.
O fato é que as sequências das partidas são muito boas, a recriação de lances marcantes e a criatividade da direção em replicar estes momentos épicos traz uma boa empolgação e um entretenimento honesto. É uma pena que quando chegamos “O fantasma do Maracanazo” (1×04), o formato de câmera lenta com a bola entrando, as reações pausadas, acabam soando repetitivas e cansativas, até mesmo irritantes.
Quando deixam tudo fluir sem aspecto de comercial focando na equipe e em figuras lendárias como Jairzinho (Gui Ferraz), Carlos Aberto Torres (Caio Cabral), Rivellino (Daniel Blanco), Gerson (Fillipe Soutto), Tostão (Ravel Andrade), dentre outras figuras do time estrelar em participação decisivas nos jogos, a série voa em diversos momentos empolgando a cada cena.
É explorando este aspecto que entendemos porque a seleção de 70 é considerada a maior de todos os tempos, o senso de coletivo, o entrosamento dentro e fora do campo, intensificado pela pressão da imprensa, familiares, torcedores e militares, ainda assim superando diversos problemas e fantasmas do passado para alcançar a Glória eterna de ser a primeira seleção tricampeã do mundo na época em questão.

Tudo isto regido por um maestro, Pelé, que senão tivesse sido escalado da forma correta, talvez não funcionaria do jeito que funcionou. O ator Lucas Agrícola no seu primeiro trabalho como ator, entrega uma atuação consistente, as vezes frágil em alguns momentos, mas com certeza sólida em outros capturando trejeitos do Pelé ajudado por uma semelhança surreal dele com nosso maior ídolo.
O elenco coadjuvante com as atuações boas de Rodrigo Santoro (7 Prisioneiros) no papel de João Saldanha e Bruno Mazzeo no papel de Zagallo, ajudaram o elenco e Agrícola a ganharem consistência. Ainda temos Gui Ferraz no papel de Jairzinho, Maicon Rodrigues no papel de Paulo Cézar Caju, sem falar na participação de Marcello Adnet como o locutor Eusébio Teixeira, se apresentam como bem vindo destaques.
Por tudo que foi falado, “Brasil 70: A Saga do Tri” é daquelas minisséries que se não escapa das armadilhas hollywoodianas para produções brasileiras de soarem artificiais em alguns aspectos, ao menos consegue entregar uma trama consistente, com boas atuações e conseguindo capturar a nostalgia do período e Copas exaltando uma das seleções mais celebradas do mundo.
Quando assistimos ao último episódio “Eu não morri” (1×05), vemos como a série consegue capturar a sensação linda do que é torcer pelo Brasil e como a Copa do Mundo é o evento mais lindo entre nações já criado. É maravilhoso ver a final entre Brasil e Itália sendo recriado de forma lendária conseguindo mostrar como o coletivo foi crucial para vitória daquela Copa.

Se Pelé nosso ícone preto foi o maior de todos os tempos naquele período continuando até hoje, muito se deve pela sua humildade em compartilhar seu talento em prol do coletivo servindo como complemento para jogadores que já eram talentosos por si só. Essa aura de companheirismo é traduzida na série do começo ao fim e só por isso vale o tempo investido.
Com a atual seleção brasileira sofrendo com altos e baixos nesta Copa atual, a minissérie vem nos lembrar porque o Brasil é referência máxima quando se trata de futebol. Talvez seja isso que precisamos não só relembrar, mas reviver para que esta geração atual, possa testemunhar o que as outras testemunharam cinco vezes ao levantar a taça de campeão, plena felicidade. E não tem melhor referência, do que rever como a seleção de 70 chegou lá. Vamos Brasil!!!
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