“Nosso Sonho – A História de Claudinho & Buchecha” – Crítica

Sensível e bonito. O longa que conta a história da dupla de funk Claudinho & Buchecha traz uma narrativa sobre dois amigos que se tornaram um fenômeno no gênero musical catapultado por atuações sólidas de Juan Paiva e Lucas Penteado.

Fonte: Manequim Filmes

O funk é um gênero musical surgido nas periferias brasileiras, especificamente nas favelas cariocas que se tornou uma forma expressão das comunidades com estilo cultural envolvente que virou marca registrada do público jovem brasileiro se tornando um dos maiores fenômenos de massa do Brasil, surgindo nos anos 70, mas ganhando seu auge nos anos 90 e começo dos anos 2000 com surgimento de vários cantores que ajudaram popularizar um estilo de música que por muito tempo foi associado erroneamente ao crime sendo muito criticado por fazer apologia ao sexo e tráfico.

A verdade é que o funk é um gênero que expressa a realidade das favelas brasileiras e também a forma que os artistas encontraram num meio tão adverso de ganharem voz e serem ouvidos mostrando muita autenticidade e criatividade. Uma das duplas musicais responsáveis por popularizar o estilo musical além das periferias, foi a dupla Claudinho & Buchecha, dois cantores que abraçaram o gênero ramificando-se na vertente do funk melody para trazer um produto mais acessível com letras mais românticas se tornando fenômenos musicais nos anos 90.

É desta forma que o longa que será lançado no dia 21 de setembro nos cinemas brasileiros com produção da URCA Filmes e distribuído pela Manequim Filmes, “Nosso Sonho – A História de Claudinho & Buchecha”, estreia cercado de expectativas para contar a história dessa dupla cheia de carisma que transformou os anos 90 num verdadeiro caldeirão cultural de danças e emoção ao mostrar um funk além das periferias capaz de ser apreciado por todos os públicos, mas sem perder sua essência criada no seio das favelas.

Fonte: Manequim Filmes

O longa dirigido por Eduardo Albergaria começa nos anos 80 mostrando a amizade do jovem Claucirlei Jovêncio de Sousa (Gustavo Coelho) e seu amigo Cláudio Rodrigues de Mattos (Vinícius Boca de 09), que já crianças criaram uma conexão que seria consolidada em 1992 quando se reencontrassem na região metropolitana do Rio de Janeiro em São Gonçalo na comunidade do Salgueiro, adotando os apelidos respectivamente de Buchecha e Claudinho.

Não existe outra maneira de classificar “Nosso Sonho” a não ser pela eterna busca de um sonho, o título é pertinente, dois jovens negros de periferia que da convivência e idas aos bailes funks da comunidade acabaram por formar uma dupla que mudaria a vida de ambos para sempre. O longa poderia ser uma fábula maravilhosa, fica essa sensação a princípio, mas Albergaria deixa claro que nenhuma realização vem sem muita persistência e alguns percalços no meio do caminho.

A narrativa escrita a quatro mãos por Fernando Velasco, Maurício Lissovsky, Daniel Dias e o próprio Eduardo Albergaria, consegue na maior tempo cobrir toda a trajetória dos funkeiros entre 1992 até chegar ao destino trágico de um dos integrantes em 2002, sendo a primeira metade do filme a mais consistente, estabelecendo bem a história pelo ponto de vista de Buchecha (versão adulta interpretada por Juan Paiva), mostrando seus problemas em casa com pai o senhor Claudino de Souza (Nando Cunha), que tinha problemas com bebida gerando conflitos paternais que serviram de base para o arco dramático do personagem ao longo do filme.

Fonte: Manequim Filmes

Ao se passar pelo ponto de vista de Buchecha (o cantor também é produtor do filme), o longa coloca Claudinho (versão adulta interpretada por Lucas Penteado) como coadjuvante, talvez por isso fica sensação de que o amigo seja aquela figura sempre alegre, irreverente e alto astral, sem que tenha um aprofundamento que nos leve a entender mais de sua personalidade, inclusive sua família é muito pouco explorada no filme, ganhando rostos, mas que não são desenvolvidos e acabam passando despercebidos.

Ao colocar este distanciamento, tudo que sabemos é pelos relatos de Buchecha, que inclusive é o narrador da trama, criando uma personificação imaculada da sua percepção de um amigo leal e amoroso representado por Claudinho, seu anjo da guarda como o cantor sempre nos lembra em determinadas cenas. Talvez isto seja uma das ressalvas do filme, mas não funciona necessariamente como um defeito, mas sim como uma decisão narrativa de como contar a história.

É nesta pegada que “Nosso Sonho” acaba ganhando o expectador, explorando o elo de amizade de Claudinho e Buchecha, reverberando em uma cumplicidade que acaba sendo a chave do sucesso da dupla. Em termos cinebiografia, o filme é bem desenvolvido durante boa parte do tempo, conseguindo equilibrar bem o drama resultando em momentos de pura emoção quando a dupla estreia no baile funk da comunidade do Salgueiro cantando o primeiro sucesso “Rap do Salgueiro” que acaba sendo a porta de entrada para o estrelato.

Fonte: Manequim Filmes

O filme tem alguns problemas na forma como faz suas progressões narrativas durante os anos, pois o roteiro acaba pincelando momentos que poderiam ser melhor explorados, mas aqui acabam sendo executados de uma forma muito rápida não dando tempo para o expectador assimilar o que está sendo mostrado, o filme acaba fazendo isso muito na segunda metade e acabamos passando por cima de momentos que poderiam render muito, como a sequência da performance de “Nosso Sonho”, divisor de águas para dupla que estourou em âmbito nacional, porém acaba sendo simplificado pelo texto.

Outro ponto que serve agora como algo positivo do filme é o uso de imagens documentais da época, seja dos bailes, seja dos programas que participaram na época mostrando o patamar que a dupla atingiu em tão pouco tempo, neste ponto a narrativa consegue usar a trilha sonora cheia de sucessos a seu favor que inclusive vai fazer o público resgatar uma nostalgia muito bem vinda à medida que os hits vão surgindo na tela, sendo impossível não cantar junto à medida que a trama avança.

Talvez o que segure e amarre toda a história de “Nosso Sonho”, nos fazendo ignorar todos os defeitos que a narrativa possa ter é o fato de acertarem na escolha do elenco, Juan Paiva (M8 – Quando a Morte Socorre a Vida) no papel de Buchecha me causou estranheza (seu tipo físico lembra mais o Claudinho na vida real), mas à medida que vamos assistindo, percebemos que o ator é ideal para mostrar o jeito mais contido do personagem, sem falar que em todas as cenas dramáticas existe uma entrega bastante sólida.

Fonte: Manequim Filmes

O ator Lucas Penteado (Barba, Cabelo & Bigode) foi uma escolha que me deixou curioso, porque apesar de não parecer fisicamente com Claudinho, se vê que ator se dedica inclusive emulando o sotaque carioca marcante do cantor em trazer todo carisma e irreverência para um personagem de bem com vida e que principalmente, possui uma química enorme com seu parceiro de cena. Paiva e Penteado funcionam como dupla e consegue entregar bem essa cumplicidade e parceria que sempre vimos toda vez que Claudinho e Buchecha se apresentavam.

O resto do elenco coadjuvante ajuda a dar mais familiaridade a quem assiste, o grande destaque vai para Nando Cunha (Barba, Cabelo e Bigode) no papel do pai de Buchecha, mas ainda temos Antônio Pitanga (Celebridade), Isabela Garcia (Celebridade), Tatiana Tiburcio (Terra & Paixão), Lellê (Totalmente Demais) e Clara Moneke (Vai Na Fé) que ajudam a compor a família e amigos da dupla mostrando que esta base era um dos motivos do sucesso dos funkeiros.

Por tudo que foi comentado, “Nosso Sonho – A História de Claudinho e Buchecha” é um filme respeitável, se ainda apresenta problemas que acabam por ser algo recorrente em cinebiografias, ao tentar comprimir em pouco tempo de projeção uma trajetória de 10 anos, acaba soando um pouco rasa principalmente na metade final. Ainda assim, existe uma consistência no longa que deve ser salientada e tudo se deve as atuações de Juan Paiva e Lucas Penteado, dois dos atores negros mais promissores desta nova geração, que conseguem transmitir a amizade e cumplicidade de uma das duplas de cantores mais carismáticas que o Brasil já viu performar, a sequência final com a música “Fico Assim Sem Você” é lindíssima e profética.

Fonte: Manequim Filmes

É seguindo esta base que a narrativa cresce, conseguindo resgatar a nostalgia principalmente daqueles que viveram a infância, adolescência e vida adulta nos anos 90 e começo dos anos 2000, sendo arrebatados pelo carisma dos reis do funk melody nacional, que continuam sendo atemporais com letras pop românticas que misturava estilo e acessibilidade conseguindo levar o funk a nível nacional num fenômeno poucas vezes visto.

Talvez o filme tenha dificuldade de mostrar a magnitude do quão grande Claudinho e Buchecha foram, talvez por isso o diretor compense isto focando num lado mais íntimo e mais dramático que resulta num final melancólico, mas cheio de carinho, ternura e esperança. Com uma sequência boa de cinebiografias no cinema nacional, “Nosso Sonho” merece ser assistido por focar no simples e entregar algo que deve encantar muitos brasileiros fãs da dupla (guarde os lenços quando os créditos subirem), fãs de funk e que merecem essa bela homenagem.

Gostou? Veja o trailer e se já conferiu o filme, diga o que achou nos comentários.

Claudinho e Buchecha na vida real

4 comentários sobre ““Nosso Sonho – A História de Claudinho & Buchecha” – Crítica

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