“Barba, Cabelo & Bigode” – Crítica

Trazendo o fervor, alegria e a leveza carioca para uma narrativa sem grandes pretensões, temos um outra comédia brasileira que é a pura exaltação da negritude em seu estilo e estado de graça.

Fonte: Netflix

Não é de hoje que estou antenado com várias produções brasileiras voltadas para o público negro que estão surgindo, é um dos motivos deu ter criado este blog inclusive. Então me alegra fazer textos sobre este assunto toda vez que vou escrever sobre algum filme brasileiro com foco na cultura negra, seja ela periférica ou não, seja ela de época ou atual, o importante é o cinema nacional ter espaço para representatividade preta que tanto queremos e precisamos.

Estou falando disso, porque a nova produção brasileira da Netflix em parceria com a produtora A Fábrica, “Barba, Cabelo & Bigode” chegou no dia 28 de julho cheia de energia e querendo um espaço no coração dos brasileiros com uma história alto astral e com uma premissa que mesmo simples tem bastante apelo cultural e diversos simbolismo bacanas tendo como cerne o futuro de um garoto negro que procura encontrar seu caminho e sua vocação, quando esta preste a entrar para vida adulta.

Este filme dirigido pelo multifacetado professor, historiador e ex-bbb Rodrigo França e co-dirigido por Letícia Prisco, conta a história de Richardsson (Lucas Penteado), garoto alegre e de bem com a vida, que acaba de terminar o ensino médio e se encontra na fase “o que fazer da vida?” enfrentando dilemas para encontrar uma carreira profissional, enquanto tenta ajudar a mãe, Cristina (Solange Couto), dona de um salão de beleza num bairro no subúrbio carioca, que quer para seus filhos, uma vida melhor do que ela teve com seu falecido marido (participação especial Sérgio Loroza).

Fonte: Netflix

Assim como o longa “Vale Night”, aqui temos um filme que pega um problema recorrente nas periferias brasileiras e trabalha a ideia de forma leve e bem humorada, mas enquanto uma tratava dos problemas na periferia paulista, este trata dos problemas no meio carioca. O roteiro escrito a três mãos e assinado por Anderson França, Marcelo Andrade e Silvio Guindane (Bom Dia, Verônica), consegue apresentar bem seus personagens e ainda usa do elemento de quebra da quarta parede para aproximar o protagonista do público.

É fato que Lucas Penteado (Malhação Viva a Diferença) tem um carisma de sobra, então o mesmo se sai bem como protagonista, falador, cabeçudo e desenvolto, o ator e comediante se sai bem dando a vida a um estudante que enfrenta o problema comum de muitos brasileiros, mas que pesa ainda mais por ele ser um menino preto de periferia, onde o futuro na educação é a melhor resposta a sociedade para mudar sua própria realidade.                

O mais legal do texto de “Barba, Cabelo e Bigode” é que mostra uma periferia cheia de possibilidades, mas sem estereotipar seus cidadãos, criando figuras peculiares que orbitam ao redor de Richardsson, como sua irmã Danielle (Jeniffer Dias) que namora um cara branco que está fazendo uma pesquisa antropológica sobre a vida no subúrbio, temos ainda Greicy Kelly (Juliana Alves) como rival da mãe de Cristina e dona de um popular salão de beleza.

Fonte: Netflix

O roteiro ainda introduz Raquel (MC Rebecca) interesse romântico de Richardsson que namora Queijo Coalho (Yuri Marçal), além de Dona Espir (Neuza Borges), dentre outros personagens dando vida a um lugar cheio de gente trabalhadora em busca dos seus “corres” e tentando ser bem sucedido na vida. É claro que o filme por ser uma comédia, trata alguns temas de forma mais simples, mas está tudo embutido ali, educação, luta de classe, mito da democracia racial, mas tudo bem inserido abrindo mais espaço para o lado positivo do subúrbio carioca.

E seguindo essa linha o filme demora um pouco a se desenvolver, o roteiro está mais interessado em ser mais cotidiano, então fica a impressão que estamos vendo um seriado de comédia versão estendida, não que isso seja ruim, mas isso perde um pouco a vibe da trama como experiência cinematográfica. Ainda assim devo dizer que o longa é muito positivo em entregar uma mensagem social e extinguir um pouco estigma de que a periferia só tem violência.

Gosto como a narrativa é regada a muita música nacional, principalmente o funk carioca que aqui é bastante presente, inclusive temos a participação de MC Carol no terceiro ato servindo como uma grata surpresa. No meio disso tudo, vemos uma clara percepção dos diretores em trazerem um elenco diverso e extremamente plural, explorando a cultura preta de uma forma linda e inspiradora, com Richardsson descobrindo seu talento como cabelereiro e trazendo cortes que abraçam a africanidade negra tão presente no Brasil, ressaltando o quão rico e cultural nosso povo é, a sequência no final do segundo ato no salão é simplesmente maravilhosa.

Fonte: Netflix

De forma mais ampla, pode-se dizer que “Barba, Cabelo e Bigode” é um filme bom, não chega a ser extraordinário e nem precisa, mas ao menos entrega um bom entretenimento, personagens carismáticos, uma direção sólida, edição caprichada e uma boa trilha sonora. Ao colocar uma pauta social relevante mostrando que os dilemas da vida de um jovem de periferia são iguais a de tantos outros, o longa humaniza a favela e mostra que buscar os próprios sonhos e um amadurecimento de ideias é o primeiro passo para descobrir sua vocação, isso ajuda a sociedade e pode resultar jovens negros bem sucedidos em Brasil que infelizmente ainda falha em oferecer empregos e educação de qualidade.

Gostou? Veja o trailer e depois comente o que achou do filme se já assistiu.

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