A nova aventura intergaláctica para toda família da Netflix abraça a diversidade entregando um dos produtos mais divertidos, inteligente e bem acabados do ano até agora.

As aventuras espaciais sempre foram um dos grandes fascínios dos seres humanos desde muito tempo, isso acaba refletindo em diversas produções seja no cinema ou na tv, passando por narrativas complexas como “2001: Uma Odisséia no Espaço” e o recente “Interestelar”, além do premiado “Gravidade” chegando a narrativas mais simplificadas como “Guardiões da Galáxia”, “Sunshine – Alerta Solar”, “Enigma do Horizonte”, “Star Trek”, “Star Wars” dentre outros que se tornaram parte da cultura pop alimentando nosso imaginário de como seria uma vida no cosmos.
Digo tudo isso para falar do novo desenho de aventura e ficção científica da Netflix, “O Meu Pai é um Caçador de Recompensas!” (My Dad The Bounty Hunter, 2023) que estreou no dia 9 de fevereiro sem muito alarde, mas que merece mais atenção por trazer uma narrativa espacial despretensiosa, divertida e em muitos aspectos emocionante devido a forma como desenvolve seus personagens.
A trama é bastante simples em sua premissa, Terry (Laz Alonso) é um caçador de recompensas espacial que precisa cuidar dos filhos no final de semana enquanto ele e a esposa dão um tempo no casamento, a pré adolescente Lisa (Priah Ferguson) e o caçula Sean (Jecobi Swain) acabam descobrindo a profissão secreta do pai embarcando escondido em sua nave durante uma missão para capturar uma fugitiva que pode lhe render uma grande recompensa.

A animação é criada por Everett Downing Jr. (Hair Love) e Patrick Harpin (Era do Gelo 4), ambos estreando na função depois de adquirirem experiência trabalhando em diversas animações como artistas de storyboard. Aqui os showrunners criam uma aventura interessante, que senão traz grandes novidades, ao menos conseguem inserir um senso de aventura e escapismo protagonizado por uma família negra, algo ainda raro em produções com esta temática sci-fi.
É bacana ver que os roteiristas conseguem ganhar nossa atenção já no piloto “O Caçador de Recompensas” (1×01), onde vemos Terry como um pai atarefado e ausente, que não percebe que está perdendo o contato com os filhos. A trama começa com um tom de mistério mostrando Terry perseguindo um criminoso dando a entender que estamos diante de uma jornada espacial bem intrigante com um visual bastante convidativo e criativo.
Os dois episódios seguintes “O Restaurante” (1×02) e “Posto” (1×03) mostram uma animação com um universo rico, personagens bem desenhados e um estilo bastante próprio que vai apresentando esse mundo em expansão cheio de alienígenas estranhos, planetas exóticos, robôs carismáticos e galáxias ricas em cores. Fica claro que a animação bebe muito de outras aventuras espaciais, algumas referências a “Star Wars” e “Blade Runner” podem ser percebidas no visual e nos diálogos causando imediata identificação de sua audiência.

É claro que “O Meu Pai é um Caçador de Recompensa” é uma animação clichê e tem suas previsibilidades, mas ainda assim sabe capturar nossa atenção com uma relação entre pai e filhos que é cheia de conflitos, as vezes um pouquinho acima do tom quando exagera no drama adolescente, mas no geral tem na sua principal qualidade mostrar problemas que ocorrem quando há ausência da paternidade, criando buracos e estranheza na relação familiar, algo que o roteiro acerta em cheio entregando um lado mais adulto à obra.
O seriado acaba evoluindo mais quando abraça seu formato e começa a entregar mais ganchos quando sente que o público está preparado para isto, é assim que surge boas reviravoltas em episódios como “Pulga” (1×04) e o ótimo “Planeta do Parque de Diversões – Parte 2: A Revolta” (1×06), que é o fim do arco iniciado em “Planeta do Parque de Diversões” (1×05) onde a série consegue balancear seu lado mais aventuresco com seu lado mais infantil, afinal a animação ainda é direcionada para crianças.
É claro que no meio de fofuras e um clima mais leve, temos espaço para uma animação com valor cultural muito grande, não só por conta de termos uma família negra como protagonistas, que traz todo um estilo que também reverbera no estilo de vestir e agir, passando pelo estilo dos cabelos e expressões que captura a essência preta e que vai de encontro com a cultura preta dos EUA, isso tudo se misturando com o clima “space opera” (“ópera espacial” no português) de uma trama que ainda encontra momentos para entregar boas sequências de ação e adrenalina em cenas bacanas de assistir como fica evidente no episódio “De Volta” (1×07).

Em termos técnicos a animação possui uma arte legal que transita entre a animação 3D e animação 2D tradicional nos flashbacks, o que cria toda uma identidade visual, esta que é acentuada por uma trilha sonora regada a muito hip hop e rap dos anos 90 claramente servindo a uma homenagem Wu Tang Gang, dentre outros cantores e grupos clássicos desta época, isso tudo misturado a cenários futuristas com armas laser e espaçonaves que viajam na velocidade da luz. Em termos de vozes, apesar de conhecer alguns atores da dublagem original composto majoritariamente de atores negros, optei por assistir dublado em português, e digo que vale muito a pena.
A reta final da animação é recheada de ação e boas reviravoltas como podemos testemunhar em “Viagem Bizarra” (1×08), episódio esse que consegue equilibrar aventura e emoção mostrando que a narrativa consegue trazer o que se pede uma aventura sci-fi de qualidade. Os dois últimos episódios consolidam uma trama que abraça seu lado família conseguindo finalizar a jornada dos personagens de uma forma satisfatória como fica claro em “Confronto” (1×09) e no final da temporada “Os Caçadores de Recompensas” (1×10).
No geral “O Meu Pai é um Caçador de Recompensas!” é uma animação bacana, representativa e que coloca uma família cheia de carisma no centro de uma aventura espacial recheada de ação e com uma mitologia que surpreendente a cada novo episódio, muito se deve também ao seu belo visual. Ainda que a trama não tenha grandes novidades, a história criada por Everett e Patrick é feita com esmero para toda família explorando de forma bacana a relação do pai com seus filhos e como precisam conviver para solucionar seus problemas, que são resolvidos de forma bastante óbvia diga-se de passagem, mas até chegar neste ponto, a narrativa terá te amarrado, te preparando para uma última reviravolta que deixará você com gostinho de quero mais. Se a série continuar neste nível de excelência, que venha a segunda temporada.
Observação: Existe um easter egg de “Maya e os Três Guerreiros” vai fazer os fãs da animação vibrarem.


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