Batanga para Sempre! A novela protagonizada por Duda Santos e que tem no elenco Lázaro Ramos como principal vilão, termina sua trajetória com belas homenagens, diálogos fortes e representatividade negra linda deixando sua marca na teledramaturgia brasileira.

Começou com a vontade fazer história e acabou se tornando um marco para um futuro da normalização da presença preta na TV. Esta foi a sensação de assistir ao último capítulo de “A Nobreza do Amor”, novela das seis da Rede Globo que chegou ao fim ontem dia 06 de novembro colocando a negritude brasileira com ancestralidade africana em evidência com elenco majoritariamente preto.
É fato que a trama criada por Duca Rachid (Cordel Encantado), Julio Fisher (Amor Perfeito) e Elisio Lopes Jr (Amor Perfeito) já havia ganhado atenção nos seus primeiros capítulos e ainda teve um texto aqui no HN com “Um Olhar Preto – Coluna Especial – “A Nobreza do Amor e o Poder da Representatividade Preta na TV Brasileira”, porque a novela trouxe algo novo para TV ao misturar realeza africana com tempero brasileiro fazendo uma ponte entre a cultura do continente africano criando a fictícia Batanga e a trama fictícia na cidade de Barro Preto no Brasil.
A princesa Alika (Duda Santos) é obrigada a fugir de Batanga após um golpe de estado aplicado por Jendal (Lázaro), derrubando a realeza e se instaurando como o novo governante do reino africano. A novela se desenvolveu muito bem nas primeiras semanas, mas sofreu um pouco na sua metade, principalmente quando a trama se concentrou muito em Barro Preto, colocando a trama política e palaciana de Batanga em segundo plano em muitos momentos.
Veja bem, o grande charme da novela era exatamente desenvolver os conflitos entre Alika e Jendal, com vários coadjuvantes orbitando em volta desses personagens como a rainha Niara (Erika Januza), a princesa Kênia (Nykolly Fernandes), Dumi Nkosi (Licínio Januário), Omar Soliman (Rodrigo Simas) dentre outros personagens que participaram da trama em Batanga e que ao longo da novela se tornaram peça chave no levante contra o vilão vivido por Lázaro Ramos.

Em contraponto, quando a história foi para o Brasil, o maior receio era da trama se perder com tempero brasileiro. Ao apostar no romance tradicional entre Alika e o jovem Tonho (Ronald Sotto), “A Nobreza do Amor” aposta no que sempre deu certo no folhetim brasileiro. A química entre Duda e Ronald realmente segura muitos momentos da trama que as vezes carece do frescor apresentado nas primeiras semanas.
Quando a trama de Barro Preto se sobrepõe a trama política e conspiratória de Batanga, a novela cai um pouco de qualidade. Porque os capítulos acabam passando muito tempo nas tramoias de Mirinho (Nicolas Prattes) para separar os protagonistas, muito tempo na trama do cangaço que inicialmente foi interessante com o aparecimento do temido Carrapato (Marcelo Médici) e seu bando tentando fazer alusão as histórias de Lampião, só que isto não é o bastante para a novela sofrer com a chamada “barriga”, com capítulos que não faziam a trama andar, apenas empacar.
Ao tentar priorizar a comédia corriqueira dos personagens de Barro Preto, a novela perde a oportunidade de fortalecer uma trama robusta de Jendal tentando achar Alika. Outro ponto foi que demorou muito para a narrativa de Batanga se unir com a narrativa de Barro Preto, tanto que a novela só engatou de novo um mês e meio mais ou menos para terminar, quando Jendal iniciou sua jornada para achar e prender Alika em Barro Preto.
É claro que o grande trunfo estava ali, o levante liderado por Akim e outros personagens em Batanga, com uma ascensão de uma personagem marcante como Kênia, filha de Jendal, fez os capítulos ganharem um novo frescor mostrando que uma grande rebelião e retomada do poder estava rolando principalmente quando Zambi, tio de Alika vai para seu país natal lutar pelo seu povo contra a tirania da rainha Binta que ficou regendo o reino enquanto o marido estava fora.

Os ecos de referência a “Pantera Negra” estão lá de forma gritante, várias referências, mas é bom deixar claro o extenso trabalho de pesquisa dos roteiristas desta novela em forcar em conflitos que remetem os marcantes conflitos ocorridos no continente africano ao longo de sua história mostrando que precisamos ler mais sobre África e seus países, para que nossa visão não seja somente a versão hollywoodiana de um continente africano fictício.
Quando Jendal consegue raptar Alika e leva-la para Batanga, “A Nobreza do Amor” se torna a novela mais relevante do momento principalmente nestas duas semanas finais, onde o foco da história ganha um ar mais épico em uma jornada que privilegia uma produção que é bem dirigida e agracia o expectador com tamanho amor a negritude brasileira.
Os capítulos finais são cheios de homenagens, guerras e conflitos empolgantes com Tonho partindo para salvar Alika de Jendal mostrando que a Globo ainda sabe investir em boas novelas. O confronto final entre o exército de Jendal e o grupo liderado por Zambi (Bukassa Kabengele) para salvar a princesa é um dos melhores e mais marcantes momentos da novela.

Desta forma, chegamos no último capítulo com poucas coisas para serem resolvidas. A morte de Jendal, o nascimento da bebê de Alika e Tonho, o sonho de uma Batanga livre e próspera longe das mãos estrangeiras, mostram que a novela sabe fazer emocionar e sabe entregar tudo aquilo que prometeu nas suas primeiras semanas.
É nítido que como toda novela, “A Nobreza do Amor” sofre com a quantidade de capítulos, afinal foram 193 no total, poderia ser menor, mas de uma forma geral conseguiu trazer drama e comédia na medida certa e teve como seu maior ponto positivo o comprometimento de um elenco que entregou ótimos momentos ao longo dos capítulos.
Fica muito nítido que para todos os atores negros trabalhando na produção, era uma experiência para marcar e naturalizar a negritude brasileira na TV. É bom destacar os trabalhos sólidos de Duda Santos (outra protagonista exemplar), Erika Januza, Lázaro Ramos (ótimo como vilão), Zezé Motta, Bukassa Kabengele, Ana Cecília Costa, Ronald Sotto (muito bom como mocinho), Nykolly Fernandes (grata surpresa como Kênia, talento nato), Lesliana Pereira (belíssima), Licínio Januário, dentre outros atores pretos que entregaram grandes cenas.
O restante do elenco ajudou a dar um tom mais leve e dramático para história e posso destacar Nicolas Prattes, Theresa Fonseca, Fabiana Karla, Rodrigo Simas, Cassio Gabus Mendes (ótimo), Danton Mello, Emanuelle Araújo, Marcelo Médici (em papel duplo) e Cyria Coentro.

De uma forma geral, “A Nobreza do Amor” é uma boa novela, que tratou temáticas como aceitação da negritude, cultura africana, cultura nordestina, religiosidade afro brasileira, críticas pertinentes ao coronelismo e ao imperialismo de países europeus sobre países africanos, racismo, preconceito e outras temáticas misturada num enredo que acabou por ser uma fábula de amor entre Alika e Tonho (Tolika como os fãs dizem) que encantou expectadores durante meses e consolidou Duda Santos como uma das melhores protagonistas pretas da atualidade.
Por mais que a novela sofra para se manter atraente ao longo de seus capítulos, no geral conseguiu ser coerente com aquilo que construiu e mostrou que a TV e os expectadores estão prontos para assistir narrativas pretas de qualidade. Os dois últimos capítulos foram uma celebração da cor preta em sua plenitude com várias participações especiais de figuras pretas marcantes de Conceição Evaristo, passando por Daiane dos Santos, Maestro Junior e terminando com Taís Araújo no papel de uma realeza africana.
É a exaltação da cor que torna esta novela especial e o apoio a representatividade que faz dela um produto que será lembrado por décadas. O último capítulo dá um salto temporal e abraça o afrofuturismo dando um gancho para uma possível continuação. Mais do que romper barreiras, “A Nobreza do Amor” eterniza histórias pretas na dramaturgia e se torna especial por mostrar que estamos vivendo uma nova era na TV, uma era que merece ser comemorada, assim como evidenciar um futuro promissor. A comunidade preta brasileira agradece.
Gostou? Conta nos comentários o que achou do final da novela. E vejo o trailer abaixo.
