Impactante e necessário. O excelente longa dirigido por Ava DuVernay apresenta uma narrativa investigativa urgente inspirada em um dos best-seller mais vendidos da atualidade que vai te deixar intrigado do início ao fim.

Existe no mundo um eterno fluxo de conflitos, guerras, ocupações, extermínios e mortes ao longo da história da humanidade que acabaram por definir muito do que o mundo é hoje, para o bem ou para o mal. E se eu te dissesse que existe uma relação entre determinados acontecimentos que definem exatamente por que vivemos de uma forma sistemática que acaba gerando separações e segregações invisíveis que estão impregnados na sociedade e que impedem uma simples relação interracial?
São estas e outras questões que o drama da Neon, “Origin” (2023), dirigido pela cineasta Ava DuVernay (Selma, Olhos Que Condenam), levanta e tenta evidenciar nesta narrativa baseada e inspirada no best-seller “Caste: Origin of Our Discontents” de 2020 da ganhadora do Pulitzer, Isabel Wilkerson, numa narrativa semi biográfica que explora um sistema implícito que moldou os Estados Unidos e que descreve como as vidas atuais são definidas por uma hierarquia de divisões humanas.
O que você precisar saber sobre este filme é que a narrativa é densa, pesada, mas instigante em muitos aspectos, muito por conta da direção de Ava que traz um olhar sensível que divide a trama em um seguimento que mostra o drama de Isabel (Aunjanue Ellis-Taylor), uma escritora que está dando um tempo na carreira após um grande sucesso, para focar no marido Brett (Jon Bernthal) e sua mãe Ruby (Emily Yancy). Enquanto por outro lado, o assassinato de Trayvon Martin, um jovem negro em uma vizinhança habitada por pessoas brancas, serve como ponto de ignição para Isabel sair do hiatus e dar início ao trabalho de seu próximo livro.

O roteiro assinado também por Ava traz reflexões importantes, enquanto escancara mais uma vez o problema racial e sistêmico dos EUA. Desta vez, a cineasta não se contenta em apenas mostrar o problema, mas abre discussão em uma ambiciosa teia de eventos na vida de Isabel que não só toca na ferida dos traumas raciais, mas também em sucessivos traumas vividos pela humanidade para enxergarmos que tudo tem origem no sistema de casta.
Então imagine que a escravidão nos EUA e posteriormente as leis de segregação de Jim Crow, o extermínio de judeus na Alemanha na segunda guerra e a submissão dos Dalits na Índia estejam de alguma forma conectados. É a partir desse ponto de origem que o expectador embarca numa jornada investigativa com sua protagonista na tentativa de embasar suas teses para que possa comprovar que estes eventos são apenas divisões orquestradas para desumanizar e rebaixar uma “raça” para justificar todas atrocidades que vieram a seguir.
É assim que “Origin” ou “Origem” na tradução literal, captura nossa atenção e nossa curiosidade de entender a teoria de Isabel, que ao mesmo tempo vive um drama pessoal convivendo com o constante luto enquanto tenta terminar de escrever seu livro colocando sua cabeça em ordem, numa busca global que passa por Alemanha, Índia e retornando aos EUA, atrás de respostas e conexões.
O longa é complexo e também mostra um amadurecimento na direção de Ava, que não só toma riscos, mas parece entender a engrenagem daquilo que quer mostrar numa trama que foge da linearidade, flerta com surrealismo como forma de mostrar o subconsciente refletindo os dramas de Isabel, ao mesmo tempo que se permite a criar linhas temporais em épocas diferentes que parecem se misturar não só em tela, mas na mente da personagem nos transportando para um ambiente incomodo, mas artisticamente muito bem executado.

Inclusive este ponto mostra que a produção acompanha de forma bastante consistente a direção, com uma edição excelente, que nunca se perde em devaneios, mas ajuda a elevar a jornada de descoberta do filme. A fotografia quase documental pode parecer simples, mas traz uma vibe de longa de época e ao mesmo tempo atemporal. O figurino e a ambientação trazem riqueza nos detalhes mostrando o quanto a obra pode ser atual ao conseguir capturar a era Obama e o começo da era Trump, sem precisar ser explicito, mas como ferramenta de enriquecimento do contexto vivido pela escritora.
É desta forma que “Origin” cresce como obra, mas muito disso devido as boas atuações que valem destaque, como: Jon Bernthal (Justiceiro), Niecy Nash (Beauty), Connie Nielsen (Mulher Maravilha) e Audra McDonald (Rustin), porém todas só funcionam, porque a estupenda atuação de Aunjanue Ellis-Taylor (King Richard: Criando Campeãs) serve como cola, engrandecendo momentos com uma presença cativante, forte e arrebatadora crescendo ainda mais a estrutura narrativa do filme que precisava de uma performance a altura.
Acredito que mesmo sendo expositivos em certos momentos e se estendendo em outros, tudo aqui tem um propósito, nada fica desperdiçado em cena, tudo parece estar conectado, principalmente quando essas linhas começam a se cruzar na segunda metade do filme, conseguindo resultar num emocionante final que deve nos deixar pensando por bastante tempo, mesmo após os créditos começarem a subir ao som da ótima canção “I Am” de Stan Walker.

Por tudo que foi comentado, “Origin” é um grande filme, talvez um dos mais importantes dos últimos anos, trazendo o melhor trabalho de Ava DuVernay como diretora e escritora, misturando drama e thriller investigativo, com toques de surrealismo numa narrativa muito bem executada que poderia se perder nas suas próprias ambições, mas invés disso entrega uma análise intrigante sobre a origem baseado no sistema de casta que não só conecta tragédias sobre raça ao longo da história, como também abre uma vertente ainda mais pertinente que explica muito do cenário que vivemos hoje.
Um filme necessário, chocante, triste, doído, sufocante e que tenta apontar uma luz no fim do túnel para humanidade que cada vez se afoga num caminho mais sombrio. Um olhar que abre o leque das questões raciais, além incrementar o debate social de uma obra que trabalha assuntos sensíveis de uma forma bastante atual e que necessita ser discutido urgentemente de uma forma ampla e global.
Gostou? Assista ao trailer abaixo e comente sobre o que achou do filme se já conferiu.
Recomendação: A belíssima canção oficial do filme “I Am” – Stan Walker

3 comentários sobre ““Origin” – Crítica”