“Ferida” – Crítica

Ainda que se apoie em diversos clichês, este drama de superação dirigido pela atriz ganhadora do Oscar Halle Berry, se mostra consistente mesmo que a história não seja inovadora.

Fonte: Netflix

Dramas esportivos relacionados a lutas de boxes, lutas livres e outros tipos de estilo sempre tiveram grandes filmes marcando este gênero, com “Rocky” protagonizado por Sylvester Stallone (Rambo) sendo um dos mais famosos e mais marcantes da história. Recentemente o filme spin off deste mesmo universo denominado “Creed” protagonizado por Michael B. Jordan (Pantera Negra) deu um novo fôlego a temática que ano após ano apresenta algum filme ligado a este universo de luta, ainda mais com a popularização gigantesca das lutas de MMA.

Seguindo esta linha, o longa “Ferida” (Bruised, 2020) protagonizado, dirigido e produzido por Halle Berry (John Wick 3: Parabellum) conta a história de Jackie “Pretty Bull” Justice (Berry), uma lutadora famosa de UFC que perdeu uma luta decisiva no passado decidindo abandonar o esporte depois disso. Quatro anos depois a ex-lutadora agora diarista tenta lidar com o problema com álcool e uma vida monótona que tem com namorado e agente de lutas Desi (Adan Canto).

O filme tem um roteiro escrito pela novata Michelle Rosenfarb não traz grandes novidades ao focar nesse período sombrio da vida de Jackie que fica ainda mais desafiador com a chegada do filho pequeno Manny (Danny Boyd Jr.) que ela tinha abandonado anos atrás. A narrativa é a típica história de superação que você sabe como começa e sabe exatamente aonde termina, talvez está aqui tenha um final diferente, mas ainda assim não escapa de algumas familiaridades.

Fonte: Netflix

O roteiro tenta a todo momento balancear drama familiar, com o drama esportivo, onde seguimos Jackie tentando superar os vícios na primeira metade da trama, enquanto tenta se reerguer na carreira de lutadora. O ritmo da narrativa as vezes é inconsistente por não ter um polimento mais acentuado nas motivações de Jackie, ou explorar melhor sua relação com o filho, as vezes você sente que a história se perde pela falta desenvolvimento de alguns personagens coadjuvantes.

O filme ganha corpo devido a direção de Berry, estreando na função, a atriz agora diretora ao menos sabe o que quer, conseguindo tomadas mais intimas acentuando o drama, conseguindo extrair emoções de alguns personagens, sem falar que a narrativa cresce exatamente na forma como ela filma a trajetória de Jackie, do treinamento até o retorno ao ringue, de longe a parte mais interessante da história, principalmente quando chegamos na luta final no terceiro ato.

Acredito que “Ferida” é uma obra que poderia pesar muito no melodrama, o começo dá muito a entender isso, mas o longa entra numa crescente muito boa quando a protagonista começa sua trajetória de superação. Apesar do filme ser um pouco longo, na maior parte do tempo consegue prender nossa atenção ao intercalar os altos e baixos da personagem e sua crescente tentativa de se conectar com filho de novo.

Fonte: Netflix

A temática sobre maternidade é apenas um dos vários temas que englobam a trama do filme que ainda fala sobre alcoolismo, relacionamento abusivo, descoberta da bixessualidade e traumas psicológicos de infância. Infelizmente nem todos os assuntos levantados são bem desenvolvidos, ou acabam ficando pela metade, mais uma vez culpa de um roteiro que as vezes precisava de uma sensibilidade maior para se assentar.

Ainda assim a segunda metade de “Ferida” traz um filme vibrante e mais sólido ao mostrar uma atuação bastante tocante de Halle Berry, que aqui consegue mostrar total comprometimento para interpretar uma atleta cheia de complexidades e que precisa provar que pode voltar aos ringues depois de anos ausente. Berry consegue mostrar fisicamente comprometimento nas cenas mais físicas, além de bastante experiência e talento nas cenas mais dramáticas, as sequências que divide a tela com a atriz Adriane Lenox (Estados Unidos vs. Billie Holiday) que faz Angel McQueen mãe de Jackie, são pesadas e muito emocionantes.                

Outra atriz que merece destaque aqui é a treinadora de Jackie, Buddhakan, interpretada pela atriz Sheila Atim (The Underground Railroad), que serve não só como interesse romântico da protagonista, mas também como um apoio importante para a superação dela, aqui Atim atua muito bem trazendo uma consistência e uma presença de tela interessante que nos faz até querer saber mais da personagem e sua história.

Fonte: Netflix

Em termos de produção, “Ferida” claramente tem cara de filme de baixo orçamento, com uma fotografia mais crua e menos cinematográfica, o longa ainda possui uma trilha sonora vibrante num álbum recheado de rappers femininas talentosas do calibre de Cardi B, passando por City Girls, H.E.R dentre outras estrelas que ajudam a dar um tom para essa atmosfera de gueto da cidade de Newark nos EUA.

No geral “Ferida” é um bom filme, talvez não seja feito para ganhar prêmios, mas com certeza consegue entreter ao trazer uma história de superação de uma protagonista negra forte e persistente que tenta superar os próprios demônios para poder seguir em frente na vida. A narrativa se beneficia da relação entre Jackie e seu filho Manny, onde a trama ganha em emoção (a última cena é lindíssima e vai te fazer abrir um sorrisão), mas se supera ao conseguir trazer uma luta empolgante e bem filmada no último ato trazendo resultados imprevisíveis que deixam essa obra menos óbvia e mais satisfatória num filme que pode não ser o melhor do gênero, mas com certeza consegue deixar sua marca.

Gostou? Veja o trailer. Se já assistiu ao filme, comentei abaixo sobre o que achou.

Curiosidade: O longa “Ferida” foi tão bem recebido pelo público que a atriz Halle Berry fechou um acordo com a Netflix para novos projetos neste universo, podemos esperar uma sequência do filme no futuro próximo.

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