Mesmo trazendo um ar de frescor, um bom terceiro ato, uma premissa que tenta reinventar a franquia, “Espiral” peca pela falta de desenvolvimento, um bom protagonista e uma execução ruim.

O ano era 2004, quando a duplinha James Wan (Invocação do Mal) e Leigh Whannell (O Homem Invisível) escreveram um longa de terror e suspense de baixo orçamento que mudaria a história do cinema como conhecíamos. O filme era “Saw”, que em português ganhou o nome de “Jogos Mortais”, que estreou nos cinemas causando um impacto inesperado e um sucesso estrondoso entre o público faturando altos 103 milhões de dólares ao redor do mundo custando apenas 1,2 milhão de dólares, isso apesar das críticas mistas.
O sucesso do primeiro gerou outras sete sequências sempre mantendo a fórmula de sucesso, um jogo com armadilhas complexas, um final com uma reviravolta surpreendente e um orçamento sempre baixo para garantir o faturamento. Em 2017, a estreia do longa “Jogos Mortais: Jigsaw” foi uma das últimas tentativas de dar sobrevida a franquia protagonizada por Tobin Bell, que apesar de faturar razoavelmente bem sepultou as expectativas da Lionsgate de continuar faturando com sua galinha dos ovos de ouro.
Eis que em 2020, de forma surpreendente, anunciaram uma nova produção de um longa que se passa no mesmo universo de Jogos Mortais para 2021. Com o misterioso nome de “Spiral: From The Book of Saw” que aqui no Brasil ganhou o nome de “Espiral: O Legado de Jogos Mortais”, o filme teria como protagonista o ator e comediante Chris Rock (No Auge da Fama) acompanhado do veterano Samuel L. Jackson (Vingadores: Ultimato) numa narrativa dirigida pelo diretor Darren Lynn Bousman (Jogos Mortais 2, 3 e 4) que já tinha dirigido outros filmes da franquia.

Esta era a última chance de a franquia conseguir se reinventar e atrair o antigo e até mesmo um novo público para este universo, mas será que todo esforço daria resultado? Após assistir ao longa, fiquei com uma impressão mista de algo que poderia ser muito melhor do que foi apresentado na trama. O filme conta a história de um sádico que está espalhando terror usando como símbolo uma “espiral” e assassinando policiais corruptos na sua visão distorcida de justiça. O detetive Ezekiel “Zeke” Banks (Rock) e seu parceiro (Max Minghella) novato tentam correr contra o tempo para tentar evitar novos assassinatos que utilizam os mesmos métodos do lendário Jigsaw.
A narrativa tem um clima de novidade, antes o expectador era inserido numa trama em que as vítimas já se encontravam nas armadilhas e precisavam achar uma forma de sair vivos delas. Isto contínua de certa forma, mas a trama se transforma num thriller de detetive na perseguição implacável de um assassino em série que parece sempre estar um passo à frente da polícia. Muito de “Espiral”, lembra thrillers como “Seven – Sete Pecados Capitais” e “Colecionador de Ossos”, infelizmente falta uma direção melhor e um certo desenvolvimento do roteiro para história realmente empolgar.
O primeiro ato da trama até consegue intrigar e inserir um mistério a cerca deste criminoso que usa os mesmos métodos de Jigsaw, colocando suas vítimas para lutarem pela própria vida em armadilhas perigosas e complexas. O longa não poupa o expectador do gore e da violência, mas falta aqui uma sutileza do diretor em dar emoção as sequências de assassinatos, assim como na forma como trabalha seus protagonistas para investigarem os crimes.

O roteiro escrito por Josh Stolberg (Jogos Mortais: Jigsaw) e Pete Goldfinger (Jogos Mortais: Jigsaw) tem sim boas ideias, mas em certos momentos, se vê uma clara preguiça em desenvolver sua história para que ela seja menos óbvia, apesar do começo promissor, o filme começa a ficar muito previsível de tal forma que se o expectador começar a ligar os fatos, descobre quem é o assassino antes da metade do filme, inclusive tem uma sequência de flashback com o protagonista que basicamente mata a charada para o público antes mesmo do próprio fazer as conexões, mostrando aqui claramente uma falta atenção para segurar esta importante reviravolta.
Talvez um dos grandes problemas de “Espiral”, seja a escolha de Chris Rock como protagonista, eu gosto do ator, principalmente em comédias, mas ainda não consigo levá-lo a sério em papéis mais dramáticos, aqui ele se mostra muito limitado e difícil de se gostar no papel de Zeke, a forma também como os roteiristas escrevem o personagem, também não ajuda muito, um detetive que tem que viver sobre a sombra do sucesso do pai policial (Samuel L. Jackson) e tendo um passado sombrio que faz dele uma pessoa não grata dentro da polícia até soa interessante, mas na prática não funciona muito, uma vez que os flashbacks mostrados constantemente para elucidar sua índole meio que atrapalham o desenvolvimento da história.
O fato disso acontecer, mostra uma direção bastante irregular de Darren Lynn, que aqui não consegue segurar o suspense, ou criar expectativas diante de uma história que vai se tornando cada vez menos intrigante até seu desfecho, porém o diretor ainda assim mostra lampejos de genialidade na reviravolta final do terceiro ato, que tem referência ao primeiro “Jogos Mortais” e termina o longa bem, mas ainda assim no geral fica a sensação de que a narrativa em nenhum momento decola sobre sua supervisão, transformando este filme em apenas um mais do mesmo dentro da franquia.

O elenco na sua maioria não tem muito brilho, Samuel L. Jackson aparece pouco e falta mais uma vez um desenvolvimento melhor na sua relação com o personagem de Chris Rock, inclusive a relação pai e filho poderia ter rendido muito no aspecto dramático, principalmente depois do desfecho apresentado no final da trama. Max Minghella (The Handmaid’s Tale) no papel do novato William Schenk também não tem muito o que fazer, sendo apenas uma peça de roteiro, assim como a bela Marisol Nichols (Riverdale) no papel da Capitã Angie Garza.
No geral “Espiral: O Legado de Jogos Mortais” tinha tudo para ser um thriller de terror e suspense bom que conseguiria reinventar a franquia, mas infelizmente acaba caindo nos clichês do gênero, na falta de desenvolvimento da sua história revelando suas surpresas antes do tempo, além de ter um protagonista bastante sem carisma. A produção do longa é decente, as mortes e as armadilhas continuam criativas, a fotografia guarda um certo charme noir, porém falta uma direção melhor com uma execução mais precisa. Infelizmente este novo capítulo da saga Jogos Mortais é aquém do esperado, talvez valha pela nostalgia, mas longe de trazer o brilho e satisfação de surpresa dos primeiros filmes da franquia.
Gostou? Assista ao trailer. Se já teve oportunidade de conferir o filme, diga logo abaixo o que achou.

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