Inspirador, divertido e eficiente. Este drama protagonizado por Anthony Mackie e Samuel L. Jackson, surpreende por fazer o simples, mas de forma muito bem-feita.

Eu sempre penso, não a nada como um bom drama que sabe desenvolver seus personagens, apresentar boas histórias, mesmo que siga uma determinada fórmula sem inovar muito, e tudo bem, as vezes você só quer ver um filme corretinho que lhe traga satisfação mesmo. Este é o caso do drama “O Banqueiro” (The Banker, 2020), longa dirigido por George Nolfi (Agentes do Destino) que traz uma história bastante interessante baseada em fatos que consegue equilibrar muito bem drama e humor numa narrativa cheia de boas surpresas.
O longa se passa no ano de 1954 e conta a história de Bernard Garrett (Anthony Mackie), um homem inteligente, introvertido, bom com os números, observador e com uma ambição para ser empreendedor que sai do interior dos EUA onde vivia com a família para se arriscar na cidade grande, lá ele se junta ao empresário Joe Morris (Samuel L. Jackson) numa jogada bastante interessante, comprar e revender imóveis em bairro nobres dominados por brancos em Los Angeles, só que ao descobrir que negros não podem adquirir bens, ele e seu sócio bolam uma jogada para burlar os entraves do sistema racista imobiliário da região e se tornarem um sucesso no ramo.
Este longa prá mim é um achado, uma produção do streaming Apple TV Plus que estreou no ano passado e praticamente passou despercebido pelo grande público, merece ser descoberto por aqueles gostam de uma boa história. O roteiro assinado por Niceole R. Levy (Manto e Adaga), David Lewis Smith (Bad Boys) e o próprio diretor George Nolfi consegue fazer um drama tradicional sem ser muito biográfico, explorando a infância de Garrett para mostrar que suas ambições vêm desde que era pequeno, focando mais na sua chegada em Los Angeles com a esposa Eunice Garrett (Nia Long) e seu filho pequeno (Jaylon Gordon).

A primeira parte da narrativa explora muito na barreira racial que Garrett encontra ao tentar ser bem-sucedido numa sociedade americana pré direitos civis ainda segregada de tal forma que pessoas negras não poderiam se tornar investidores, ou comprar imóveis em locais predominantemente habitados por brancos. O grande trunfo da narrativa aqui é mostrar como a mente aguçada de Garrett funciona, pensando sempre fora da caixa e encontrando as pessoas certas pelo caminho o fazendo adquirir conhecimento sobre locação, compra e venda de imóveis.
A trama é bem desenvolvida e o ritmo é muito bom, apesar do diretor George Nolfi mostrar que o racismo é presente em muitos momentos, ele consegue equilibrar situações revoltantes como Garrett sendo barrado no banco, ou sendo impedido de crescer pelo próprio mentor (Colm Meaney), com cenas dele realmente conseguindo achar brechas no sistema para ser bem-sucedido em seus planos.
É aí que entra o jovem Matt Steiner (Nicholas Hoult), que surge como uma oportunidade para Bernard e Joe conseguirem comprar casas usando uma pessoa branca como a cara do empreendimento que eles montaram, enquanto conseguem faturar alto em cima das mesmas pessoas que fecharam a porta para eles nos bastidores. O mais interessante de “O Banqueiro” é que o filme expõe não só um preconceito sistêmico, como também mostra como é difícil para famílias negras terem empreendimento próprios sem ser explorados por bancos e suas altas hipotecas.

A forma como o filme mostra que Garrett esta muita frente de seu tempo, é que ele não só compra imóveis em bairros brancos, ele revende para pessoas negras fazendo elas ocuparem espaços que não tinham vez por conta da segregação promovida naquele período nos EUA. É a típica ação humana que transforma sociedades e inspira outras pessoas a terem atitudes semelhantes quebrando toda uma barreira criada para separar negros e brancos no caminho do sucesso.
Um filme como “O Banqueiro” não seria nada, se o elenco não fosse bom, mas felizmente este elenco é muito bom. Nia Long (Empire: Fama e Poder) como esposa do protagonista mostra uma doçura e uma firmeza digna de uma mulher preta, dando apoio ao marido e compartilhando de suas mesmas ambições. Nicholas Hoult (X-Men: Primeira Classe) faz um bom papel como Matt Steiner, que não vê problema em trabalhar com dois empresários negros, mas se mostra em dúvida sobre o empreendimento deles principalmente na metade final, aqui Hoult consegue atuar bem sem que o personagem perca a boa índole.
Outros destaques são: Colm Meaney (Gangs of London), Jessie T. Usher (The Boys), Gregory Alan Williams (Brightburn: Filho das Trevas) que completam o bom elenco coadjuvante. Porém quem domina o filme é Anthony Mackie (Falcão e o Soldado Invernal) e Samuel L. Jackson (Vingadores: Ultimato), o primeiro com uma atuação muito boa, que consegue passar intelectualidade e seriedade em suas expressões, enquanto o segundo é um típico personagem do Jackson, meio canastrão, meio gângster, mas com charme, humor e presença de tela, servindo de bom contraponto para seu parceiro de cena.

A segunda metade do filme é marcada por uma virada em que Bernard e Joe precisam enfrentar a justiça e a trama ganha ares de filme de tribunal, apesar de nunca abraçar esse aspecto, mas o interessante é que o roteiro ainda guarda uma reviravolta na manga nos minutos finais, terminando de uma forma satisfatória, ainda que deixe um gostinho amargo de injustiça no ar.
De uma forma mais geral, “O Banqueiro” é um ótimo drama, segue um ritmo mais tradicional, mas ganha o expectador através do seu envolvente desenvolvimento e das boas atuações de Anthony Mackie e Samuel L. Jackson que seguram a trama muito bem. O longa é a típica história verídica que você não espera muito e ela te entrega muito mais do que você imagina. Pessoalmente é bacana assistir um longa com protagonistas negros fortes, inteligentes e com mentes de empreendedores, mostrando que mesmo em um sistema preconceituoso que não os favorece, é possível ser bem-sucedido, quebrar barreiras e servir como agente da mudança e fonte de inspiração para futuros jovens negros.
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