Esta série brasileira faz uma análise bastante competente do que é ser jovem no mundo atual, misturando mistérios e tecnologia numa trama envolvente, mas que as vezes tropeça nas próprias pretensões.

Uma das coisas que me deixa feliz é o fato de um serviço de streaming como a Netflix estar investindo em produções nacionais e abrindo espaço para cineastas brasileiros mostrarem seus trabalhos com tramas totalmente voltadas para nosso público. Em “Coisa Mais Linda” apesar da primeira temporada dar impressão de enlatado norte americano, a segunda temporada lançada recentemente foi uma prova de que podemos fazer sim boas tramas nacionais. Junto com ela temos sucessos como: “3%” (inclusive fazendo sucesso em outros países), “Sintonia” e agora “Boca a Boca” que servem de boas referências do que o áudio visual do Brasil é capaz de fazer, saindo um pouco das produções normalmente ligadas a Globo.
Em “Boca a Boca”, temos uma série nacional muito bem produzida, cheia de personalidade e com um roteiro intrigante o suficiente para deixar o público vidrado por seis episódios. A trama escrita por Esmir Filho acompanha a vida numa cidade do interior do Brasil que é mudada drasticamente depois que um grupo de jovens é contaminado por uma doença contagiosa e misteriosa transmitida pelo beijo.
O ponto de partida da trama começa com Bel (Luana Nastas) descobrindo uma mancha preta nos lábios um dia depois de participar de uma rave com seus amigos. Em meio a burburinhos e fofocas na escola, o trio protagonista Chico (Michel Joelsas), Fran (Iza Moreira) e Alex Nero (Caio Horowicz) ficam apavorados e tentam entender o que aconteceu com a amiga que foi internada no hospital da cidade de Progresso. O piloto “Te Peguei!” (1×01) consegue dar o tom da história e ser envolvente o bastante para criar um clima de mistério, intercalando as descobertas dos protagonistas no presente enquanto mostra o que aconteceu na rave na noite anterior.
A direção de Esmir Filho consegue dar espaço suficiente para os personagens se desenvolverem e mesmo que o piloto tenha curtos trinta minutos, é o suficiente para conquistar o público. “Boca a Boca” é uma série sobre jovens para jovens, então temos muita pegação, muito sexo, muita interação e muitos conflitos, isso mantém a trama aquecida e como o piloto é eficiente, os episódios seguintes apenas consolidam o que foi estabelecido, mantendo a estética única e cheia de cores.

Nos episódios “Sextou/Segundou” (1×02) e “É fácil quando não te afeta” (1×03) a história explora a repercussão da doença entre os alunos desse colégio particular de Progresso, colocando o ambiente em polvorosa. Chico, Fran e Alex tentam refazer os passos deles na noite da rave, para saber quem teve contato com Bel e quem potencialmente pode ter transmitido a doença.
O contexto de “Boca a Boca” é bastante atual, afinal estamos vivendo uma pandemia que está nos impedindo de conectar com qualquer pessoa que seja. Na série beijar pode ser perigoso, mas isso é tratado como boato, com vários adolescentes desafiando as alegações de um lado e negando a existência da doença (isso te lembra algo?). O roteiro começa a dar peso para os personagens de Fran, Chico e Alex, a primeira é tecida com as características de uma personagem contida, descobrindo sua própria sexualidade, enquanto tenta ajudar a mãe e tenta superar um trauma do passado. No caso de Chico, talvez o personagem mais interessante da série, tem um arco explorando seu espírito livre jovem focando no seu tórrido romance com o peão Maurílio (Thomas Aquino), enquanto tenta ajudar seus amigos a descobrir a origem da doença.
Alex tem um arco que abrange sua família, que basicamente está no centro da história, seu pai o fazendeiro Doni Nero (Bruno Garcia) possui criação de gados e através da sua filha Bianca Nero (Bella Camero) que trabalha com embriões, ele tenta tornar seus negócios ainda mais lucrativo. Sem revelar muita coisa, vamos dizer que esta família esconde mais do que nós imaginamos. A série possui boas tramas em paralelo e uma crescente boa, com uma morte inesperada no episódio três, faz trama toma ainda mais fôlego agora criando uma tensão na cidade.
Os roteiros escritos também por Esmir Filho nos primeiros episódios e supervisionado pelo mesmo liderando um grupo de roteiristas que conta ainda com talentos como Juliana Rojas do excelente filme “As Boas Maneiras”, traz boas questões sobre o mundo jovem e cria paralelos interessantes usando a doença como uma forte analogia de forma mostrar que a maioria dos que estão afetados pela doença possuem alguma insegurança ou vulnerabilidade que os deixa expostos ao contágio desse vírus misterioso. O brilhantismo da narrativa para usar isso para gerar conflitos e para trazer respostas é um dos pontos fortes da narrativa e é assim que episódios “A Fim de Real?” (1×04) e “Unfollow” (1×05) trazem boas reviravoltas para trama.

Outro ponto importante é a tecnologia, aqui utilizada de uma forma esperta. Com o mundo conectado em que vivemos, a série utiliza isso a seu favor tanto para mostrar de uma forma bastante interativo a comunicação entre esses jovens, mostrando também as armadilhas e perigos virtuais, além de enfatizar que boatos e notícias falsas podem ser espalhados facilmente e causar muitos danos com consequências terríveis, como ficou claro na trama de Chico perto final da temporada.
Talvez minha ressalva com “Boca a Boca” seja o fato dela se tornar um pouco repetitiva em alguns momentos. A estética do piloto usada exaustivamente, novamente é utilizada no episódio quatro, mas sem o mesmo vigor, isso acaba por cadenciar um pouco a trama. Se por um lado na temática jovem a série dá um show, por outro lado, temas como desigualdade, luta de classes e outros conflitos sociais bastante presentes nas tramas, são apenas pinceladas superficialmente, é claro que esse não é o foco, mas história ganharia mais peso se fossem abordados.
A reta final de “Boca a Boca” onde a série deixa um pouco o drama de lado e começa a focar nas soluções e na resolução dos mistérios, senti que faltou um pouco de polimento, já que a série abre mão de desfechos que poderiam ser mais diretos, mas aqui acabam sendo atrapalhados exatamente porque a um excesso de câmera lenta e música enquanto a ação acontece na tela, isso tira um pouco o expectador da tensão que claramente poderia ter mais impacto, isso fica muito evidente no episódio que fecha a temporada, “Estamos Todos Doentes” (1×06), que apesar de ter bons ganchos, perde ponto por impacto narrativos quando a direção escolhe a estética ao invés da ação mais crua.
De uma forma geral, “Boca a Boca” é um bom produto nacional, não só por ter personalidade própria, mas por envolver bastante o expectador na trama, tendo personagens bastante carismáticos e que conseguem segurar a narrativa muito bem. A série tem sim algumas ressalvas, mas olhando no todo, temos aqui um produto de qualidade, mostrando um potencial bastante consistente. Por mais que não tenha amado o season finale, acredito que a história tem muito para render numa premissa que fica cada vez mais interessante e abre muitas possibilidades para o futuro, este foco no universo jovem foi certeiro, muito bem desenvolvido e com uma visão bastante interessante da juventude brasileira.

Elo Preto
Personagem: Fran
Atriz: Iza Moreira
Idade: 19 anos
O destaque da coluna de hoje vai para Iza Moreira no papel de Fran. Sua personagem é uma adolescente negra, lésbica, inteligente e decidida, esta personagem consegue ter boa presença de tela sendo co-protagonista da trama, o roteiro desenvolve a personagem bastante nos três primeiros episódios, ela perde um pouco de espaço na reta final, mas não deixa de marcar a presença tomando os holofotes para si quando preciso, mesmo contracenando com ótimas atrizes como Denise Fraga. Detalhe, esse é o primeiro trabalho de Iza que chegou prometendo muito na profissão.
Gostou? Veja o trailer logo abaixo e se já assistiu a série, comenta também.

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