Poderoso, mas falho, este drama protagonizado por Will Smith tem todos elementos de uma história marcante, mas sucumbe aos clichês do gênero e a sua própria ambição.

Filmes sobre escravidão são pesados, não existe forma de descrever estes atos que vão contra tudo que conhecemos como a forma mais cruel de exemplificar o ser humano exercer uma opressão a outro ser humano e torna-lo sua propriedade. A escravidão negra nos séculos passados, foi a que mais doeu e deixou marcas na história da humanidade, principalmente nos países do continente americano, onde o comércio de escravos tornava tudo uma prática “normal” da época, mesmo que fosse cruel e desumana. Levantes, rebeliões e lutas constantes se deram por anos, até que as comunidades negras conseguissem ver a luz do dia e ar de liberdade.
Assim como no Brasil, nos EUA a escravidão foi pesada, sendo este período retratado na tela em diversas ocasiões no cinema, os exemplos mais recentes foram o ganhador do Oscar de melhor filme “12 Anos de Escravidão” (uma das retratações mais fortes vistas em tela) e o recente “Harriet”, colocados aqui como exemplo de como a histórias se diferenciam retratando um mesmo período.
Enquanto o filme dirigido por Steve McQueen (Small Axe: Os Nove de Mangrove) é um retrato cru, carregado por um texto denso e atuações marcantes, o filme protagonizado por Cinthia Erivo (As Viúvas) apesar de sua atuação forte, cai no erro da novelização perdendo as características cinematográficas e entregando algo apenas bom, mas que poderia ter sido melhor conduzido ao retratar a história da lendária Harriet Tubman.

Seguindo a linha do último filme mencionado, o novo longa dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), “Emancipation – Uma História de Liberdade” (Emancipation, 2022) que estreou no último dia 9 de novembro no streaming da Apple TV Plus, baseado na história real de Gordon, aqui renomeado de Peter (Will Smith), escravo que foge do seu cativeiro para tentar uma chance de liberdade se juntando ao exército do Presidente Lincoln na região de Baton Rouge.
O roteiro assinado por William N. Collage (Assassinos Creed) choca pelo seu brutal primeiro ato, mas deixa a desejar nos diálogos pouco inspirados carregados de clichês e frases de efeito. Existe uma clara tentativa de criar drama, que até funciona no primeiro momento quando vemos Peter deixando sua família para traz e indo trabalhar na construção de uma ferrovia que serviria para os comandantes do sul contra atacarem as forças do norte, porém isto não se sustenta por muito tempo se tornando repetitivo muito rápido.
Uma grande história não precisa de muito para te arrebatar, basta conseguir te envolver na trama e no drama de seus personagens, aprofundando nos seus dilemas e conflitos. Infelizmente a direção de Fuqua é bastante simplificada e previsível, acentuada por uma fotografia que é coberta por um filtro que na maior parte do tempo deixa o filme com pouca personalidade mesmo que a intenção seja de tentar fazer algo mais documental, isto infelizmente reflete na forma como expectador é impactado pela trama.

É seguindo neste ritmo, que “Emancipation” acaba perdendo um pouco de sua carga dramática ao tentar chocar por chocar, mas é no segundo ato que a narrativa começa a ficar mais interessante com a fuga de Peter e a perseguição implacável do terrível Capitão do Mato, Jim Fassel (Ben Foster) e seus subordinados que caçam o escravo pelos pântanos da Louisiana. É neste ponto que a história ganha ritmo e finalmente Fuqua consegue imprimir certa urgência e tensão colocando diversos obstáculos entre seu protagonista e o ponto de chegada trama.
Talvez o que vale a pena neste filme, seja a atuação do agora ganhador do Oscar, Will Smith (King Richard: Criando Campeãs), retornando depois da sua polêmica aparição na última cerimônia da famosa premiação de cinema e depois de uma cancelamento meio que absurdo por parte da internet, mídia e alguns artistas de dentro da indústria, apresenta aqui um trabalho bastante decente que em muitos momentos traz um brilhantismo que se não é genial, é correto e dramático na medida, seja em suas expressões físicas, seja na forma como carrega a emoção de um escravo que desafia seus mestres, não a perde fé e não abaixa a cabeça mesmo que isso signifique desafiar seus algozes o colocando numa linha de risco.
É apoiado nesta consistente atuação, que o filme cresce, que somos arrebatados por uma narrativa que tem suas ressalvas, mas consegue em alguns momentos nos trazer indignação e incredibilidade mostrando que a escravidão foi uma das maiores atrocidades já feitas pela humanidade. E neste ponto, Antoine Fuqua acerta ao trazer tensão, perigos e uma violência que mostra que a liberdade tem seus custos e suas consequências.

O terceiro ato é onde a obra muda seu tom de novo, de um filme de perseguição e luta por sobrevivência, para um longa de guerra, porém faltou um polimento para o roteiro conseguir causar certa antecipação, tudo é muito corrido na transição, mesmo apresentando uma grande sequência de batalha que é até bem filmada, porém curta, com uma ambientação impecável elevando para algo mais grandioso com um escopo ambicioso com um resultado decente mostrando um alto valor de produção.
No geral “Emancipation – Uma História de Liberdade” é um bom filme, mas falta algo para torna-lo um grande filme, as vezes também falta sutileza para não transformar a violência vista em tela em algo gratuito e com pouca emoção, infelizmente a narrativa peca nisto em determinados momentos, fazendo a jornada de Peter “Chicoteado” (como ficou conhecido) carecer de respiros melhores para que o expectador sinta o impacto da luta do personagem. Mesmo com uma direção decente, Antoine Fuqua só consegue êxito quando extrai o melhor de Will Smith em tela, o ator felizmente tem uma entrega muito grande carregando o longa nas costas, conseguindo transmitir pelo olhar inquebrável, pelas feições duras, o que é a dor do trabalho escravo, fazendo jus a um personagem real, que se tornou símbolo de resistência e um ícone da luta pela liberdade ao arredor do mundo contra todo e qualquer regime escravocrata da época, neste ponto, o filme é simplesmente poderoso.
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