“A Melhor Mãe do Mundo” – Crítica

Simples e arrebatador! O longa protagonizado Shirley Cruz numa atuação estupenda, mostra o terror da violência doméstica pelos olhos de uma mãe e seus filhos numa jornada de libertação.

Foto/Reprodução – Galeria Distribuidora

Mais de 21 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de agressão física nos últimos 12 meses segundo uma pesquisa solicitada pelo Fórum de Segurança Brasileira no último censo liberado em março de 2025. Isto corresponde a 37,5% do total de mulheres no Brasil, sendo que muitas deste casos de violência ocorre em casa e normalmente pelo próprio companheiro, aumentando e muito os números de feminicídio no país.

Estou citando este dados para falar da produção da Galeria Distribuidora, “A Melhor Mãe do Mundo”, filme nacional que foi seleção oficial do Festival de Berlin 2025 e que estreou nos cinemas no dia 7 de agosto, e que conta a história de Gal (Shirley Cruz), uma catadora de recicláveis que decide fugir dos abusos de seu marido Leandro (Seu Jorge), após ser ignorada pela polícia ao denuncia-lo. Para proteger seus filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (João Victor), ela os coloca em sua carroça e parte em uma jornada pelas ruas de São Paulo.

Este longa escrito e dirigido por Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?) toca em várias feridas da sociedade brasileira trazendo assuntos relevantes sobre violência doméstica, racismo estrutural, abandono do Estado e principalmente, a mulher como base da pirâmide familiar com uma grande ênfase nas mulheres pretas representado pela figura de Gal.

Foto/Reprodução – Galeria Distribuidora

A narrativa ganha pontos por focar na rotina da personagem principal familiarizando o expectador que tem a oportunidade de acompanhar basicamente um dia inteiro de trabalho e cuidado com filhos, antes de realmente embarcar na premissa de quando Gal toma a iniciativa de pegar os filhos e leva-los para casa de uma prima na Zona Leste de São Paulo.

O cuidado na direção e no texto de Muylaert, transforma o filme em uma trama que na superfície parece a jornada de uma mãe e seus filhos em busca da liberdade, mas que olhando mais afundo encontramos a complexa marca da violência e o desejo de proteção de uma mulher que enfrenta uma batalha interna entre voltar atrás ou seguir em enfrente na sua decisão, isto é efeito colateral da maioria dos relacionamento tóxico sobre a figura feminina.

Muito da qualidade de “A Melhor Mãe do Mundo” vem da escolha certeira do elenco. Shirley Cruz (O Clube das Mulheres de Negócio) é uma força da natureza no papel de Gal, uma mulher determinada, trabalhadora e humana, que traz leveza para os filhos, enquanto escondem a verdade do motivo de sair numa jornada para leva-los rumo a segurança e longe de seu companheiro. A atriz está impecável, trazendo expressões incisivas e uma dureza no olhar que só vemos em mulheres pretas brasileiras.

Foto/Reprodução – Galeria Distribuidora

A escolha do elenco mirim foi um achado, Rihanna Barbosa no papel da personagem que leva seu nome, é uma doçura, com falas seguras, as vezes um pouco acima do tom, mas com uma cena final que vai deixar muita gente com os olhos marejados. O pequeno Benin Ayo é um carisma puro de uma criança que solta frases aleatórias que as vezes são certeiras e outras que geram boas risadas.

Vale ressaltar que este trio protagonista mencionado é encantador em tela, é lindo ver a relação entre a mãe e seus filhos, numa química preciosa que irá criar uma conexão imediata com o público não só pela sensibilidade como tudo é conduzido, mas por trazer uma aura lúdica mesmo enfrentando uma dura realidade que se espreita cada esquina nesta grande cidade.

E fechando o elenco principal, temos Seu Jorge (Cidade de Deus), no papel do marido de Gal, Leandro. O ator está simplesmente assustador num papel que representa o pico da masculinidade tóxica carregada por gerações que ainda perpetuam na sociedade brasileira revelando essa ânsia dos homens em serem os provedores do lar, onde a mulher é tratada como posse, precisa ser submissa e fazer suas vontades.

Foto/Reprodução – Galeria Distribuidora

É neste ponto, que “A Melhor Mãe do Mundo” encontra o equilíbrio entre o drama e tensão psicológica realçado pela trilha sonora que potencializa um texto que traz também uma ótima crítica social sobre a miséria urbana ao colocar a trama no centro de uma metrópole como São Paulo, com toda sua diversidade étnica-cultural e problemas sociais, onde vemos pessoas em situação de rua como um problema público que o estado não consegue ter uma solução definitiva e a maior parte da população finge que não existe.

De uma forma geral, “A Melhor Mãe do Mundo” é daqueles filmes brasileiros marcantes e também uma produção muito melhor que o longa anterior de Anna Muylaert, muito por conta da forma como o tema principal é abordado e por conta da atuação excelente de Shirley Cruz. Um filme necessário que muitos brasileiros, principalmente casais deveriam assistir. Existe uma corrente de irmandade neste filme entre mulheres, principalmente mulheres pretas representado aqui pelas personagens interpretadas pelas atrizes Rejane Faria e Luedji Luna, que traz um acalento em meio a perturbadora realidade da violência doméstica.

Portanto, o filme é daquelas dicas imperdíveis não só pela mensagem social importante, mas por mostrar que é possível se libertar de uma relação não saudável e como Gal deixou bem claro, ela faz tudo pelos filhos, pois além de ser mulher, mulher preta, a personagem é uma grande mãe, que enfrenta todas as mazelas da vida pela felicidade dos rebentos, fazendo dela, como o título mesmo definiu, a melhor mãe do mundo.

Gostou? Veja o trailer e comente abaixo se já assistiu ao filme.

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