“Presidente Por Acidente” – 2° Temporada – Crítica

Não é fácil ser presidente! A segunda temporada traz Stéphane Blé na cadeira presidencial enfrentando preconceitos, sabotadores e a extrema direita numa narrativa engraçada que enfatiza uma sátira política francesa inteligente, ácida e imperdível.

Fonte: Netflix

Faz mais de um ano desde que fomos apresentados a comédia francesa da Netflix “Presidente Por Acidente” (En Place, 2023), que apesar de modesta em termos de produção, conseguiu nos conquistar pela forma esperta como trouxe críticas políticas envolta na candidatura de Stéphane Blé (Jean-Pascal Zadi), que saiu das margens da periferia francesa e terminou a primeira temporada se elegendo o primeiro presidente negro da França.

A boa notícia é que a série conseguiu ser renovada depois da boa repercussão, principalmente na França, ganhando a oportunidade de retornar a este universo continuando agora a saga de Blé tomando posse como o principal líder do país. É claro que esta comédia criada por François Uzan e Jean-Pascal Zadi, iria mergulhar fundo na temática política é isto que este segundo ano que estreou dia 29 de agosto, traz de melhor num retorno bastante afiado em seu texto.

A série começa exatamente no ponto que parou, com Stéphane dando mais um passo na carreira política, agora eleito pelo voto popular presidente da França, porém no primeiro episódio “No Palácio” (2×01) vemos que não é fácil ganhar a confiança do povo francês e não é fácil perder os trejeitos urbanos para assumir um cargo de grande importância. Incrível como a narrativa é ótima em aproveitar estes momentos para trazer um humor escrachado colocando Stéphane para quebrar protocolos de décadas e tomar atitudes absurdas incluindo no discurso de posse, afinal queria fazer uma “França mleh!”, inclusiva para todos.

Fonte: Netflix

É claro que tudo vai por água abaixo quando seu amigo e segurança, Mo (Jean-Claude Muaka), em meio as ameaças de atentados por supremacistas brancos a nova presidência, acaba por engano sequestrando o embaixador da Noruega, criando uma crise diplomática nos bastidores. É a partir dessas loucuras que a temporada de “Presidente Por Acidente” é pautada, aproveitando para tecer críticas ácidas ao sistema político francês e também aproveitando mostrar que não basta ter apenas um presidente negro com boas intenções, mas convencer os franceses de que isso pode ser o melhor para o país.

Gosto como o contexto da auto afirmação mostra que Stéphane não tem nenhuma aptidão para o cargo, como vemos no episódio “Trabalhando Bem Juntos” (2×02), mas isso não impede o personagem de tentar fazer o certo ao trazer a esposa Marion Blé (Fadily Camara) para ajuda-lo a lidar com a presidência, além de escolher uma de suas opositoras políticas, a natureba Corinne Douanier (Marina Foïs) para assumir como primeira ministra, além é claro de ter Yasmine (Souad Arsane) como assessora e o malandro William (Éric Judor) retornando ajuda-lo a lidar com a crise diplomática na Noruega.

A série consegue manter bem o bom ritmo e aprofunda ainda mais na paródia, explorando inclusive a divisão política da França, com a esquerda tentando equilibrar os problemas com a figura de Stéphane e Corinne, mas sendo sempre sabotado por radicais de extrema de direita como vemos nos episódios “No Trono” (2×03) e “Em Uma Missão” (2×04), inclusive neste último, vemos o personagens e seus amigos numa missão de resgate na Ilha de Guadalupe num dos episódios mais inusitados e engraçados da temporada, com destaque para uma cena perto do final é que pura reparação histórica.

Fonte: Netflix

É claro que neste ponto “Presidente Por Acidente” só vai funcionar se você conseguir não levar tudo isto a sério, as pessoas tem mania de levar humor ao pé da letra e aqui não é o caso. Existe piadas para todos os tipos de cores, contextos e credos, algumas são engraçadíssimas, outras soam um pouco fora do tom, mas só reforçam o quão escatológica a série pode ser, sendo que o maior trunfo é usar a suposta “inocência” de caráter de Stéphane Blé como centro de toda a confusão do personagem no cargo de presidente.

Os méritos vão para o ator Jean-Pascal Zadi, que traz carisma para um personagem que ao mesmo tempo é inteligente, mas por outro lado é extremamente burro, se deixando enganar em situações antológicas, para não dizer hilárias, tudo isto, catapultada por um elenco coadjuvante que tem como destaque Eric Judor, Marina Foïs e Jean-Claude Muaka, que ajudam a tornar as situações ainda mais engraçadas de assistir.

Em termos de produção, claramente a série ganhou um orçamento maior, agora temos tomadas mais elegantes da capital francesa, além de finalmente usarem a arquitetura francesa a favor da série, com belas cenas no interior de palácios luxuosos, além de tomadas externas mais bonitas. A trilha sonora com melhor do hip hop e rap francês dá o ar da graça enfatizando a origem do protagonista, o figurino brega dá o tom de comédia, principalmente quando vemos a negritude periférica de Stéphane, entra em conflito com a etiqueta da alta sociedade francesa.

Fonte: Netflix

Como todo contexto político, “Presidente Por Acidente” sabe mostrar a resistência da população, principalmente de opositores a implementações novas de um governo que mal começou. Em praticamente em um mês, Stéphane enfrenta oposição pesada, protestos generalizados, atentados e outros conflitos, que deixam seu governo instável, é claro que o presidente recém empossado não se ajuda, mas se vê aqui uma veia conspiratória crescente que só piora na reta final.

O episódio “Verdade” (2×05) expõe um caso presidencial relacionado a primeira dama que leva os planos do primeiro-ministro tentar um golpe de estado com apoio da mídia, transformando o final da temporada numa corrida contra o tempo para Stéphane tentar convencer os franceses que ainda é a pessoa certa para o cargo. É claro que a série acaba pecando em aprofundar em algumas temáticas, por conta da pouca quantidade de episódios, porém não deixa de ser auto consciente quando precisa passar uma mensagem política para o expectador.

De uma forma geral, “Presidente Por Acidente” continua sendo uma série inteligente, com humor pontual, que usa todo o contexto de uma pessoa negra estar na presidência para mostrar a complexidade cultural e política que é unir a população francesa em prol a uma causa. O final da temporada com episódio o “Fugitivos” (2×06), termina com um ótimo gancho, o que me deixa com receio da Netflix cancelar a série antes de termos um final digno, porém isso não impede de recomendar esta comédia que cresce bastante na segunda temporada e merece sua atenção com um entretenimento irreverente e extremamente atual de uma das melhores comédias de 2024.

Leia texto da primeira temporada aqui.

Gostou? Veja o trailer do segundo ano e comente se já conferiu a série.

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