“Bandida: A Número Um” – Crítica

Bandida e ousada! O longa nacional inspirado em fatos reais conta a história de uma das maiores traficantes da história da Rocinha do Rio de Janeiro em um filme que entretém por trazer uma história viciante e surpreendente.

Fonte: Paris Filmes

O cinema nacional tem dificuldade de desassociar do gênero criminal desde que “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” viraram fenômenos brasileiros de bilheteria, não que seja algo ruim, mas acabou estereotipando na mente do cidadão comum daqui que cinema brasileiro só é bom quando traz esta temática à tona misturando violência urbana e sexo, o que não é verdade, “Marte Um”, além dos recentes “Mussum, o Filmis” e “Biônicos” mostra que o Brasil tem vários longas em gêneros diversos para serem descobertos.

Ainda assim, o gênero policial e criminal acaba sendo um dos melhores do nosso cinema, não tem como negar, mas isto só funciona quando a história é bem contada, como é o caso do longa nacional “Bandida: A Número Um” (2024), filme brasileiro da Paris Filmes Entretenimento disponível na Netflix, baseado em fatos que conta a história de Rebeca (Maria Bomani), uma menina que aos nove anos foi vendida pela avó para um bicheiro que comandava o tráfico na favela da Rocinha no Rio de Janeiro, neste meio a jovem vira uma mulher perigosa que acaba virando cabeça do tráfico na favela mais famosa do Brasil.

O filme dirigido por João Wainer (A Jaula) chama atenção pela personalidade, se passando entre o final da década de 70 e boa parte nos anos 80, até o começo dos 90, temos um Brasil em formação onde as periferias estão mergulhadas numa onda de drogas que espalham pelos alicerces da sociedade com a cocaína se tornando um dos maiores problemas do país até então.

Fonte: Paris Filmes

A narrativa de “Bandida: A Número Um” aborda não só a questão das drogas e do tráfico, mas retrata sua protagonista Rebeca como consequência direta da influência dos problemas sociais de um país que acabam empurrando os mais vulneráveis para as margens, com jovens, principalmente negros e pobres caindo no mundo crime, por falta de alternativa e perspectivas. Rebeca é um exemplo concreto desta realidade, abandonada pela mãe que vivia mais para os patrões ricos, do que para própria filha, com um pai ausente e uma avó oportunista, a garota não tinha exemplos que a tirassem desta dura realidade.

 O roteiro escrito por Patrícia Andrade, Cesar Gananian, Thaís Nunes e o próprio João Wainer pega como referência o livro de Raquel de Oliveira “A Número Um” e tece a trajetória dessa criança preta de periferia que acaba crescendo na Rocinha sendo levada para dentro do crime onde acaba se adaptando e posteriormente se apaixonando pelo traficante Pará (Jean Amorim), numa hierarquia de disputa dentro de uma favela que não só se beneficiava do crime, mas também da venda de drogas alimentando um esquema lucrativo e difícil de ser combatido.

O fato é que “Bandida: A Número Um” entretém, porque traz uma aura própria, com uma narração em off da protagonista, que grava momentos chaves de sua vida, que aqui é executada com cortes que lembram documentário com uma fotografia que intercala imagens da época, com outros que capturam o clima retrô do Brasil dos anos 80. É claro que o primeiro ato peca um pouco quando apressa eventos até a queda do chefão do crime Seu Amoroso (Mihem Cortaz), mas ao menos consegue mostrar como Rebeca precisou crescer rápido cercada de perigos em um ambiente bastante vulnerável, principalmente para uma mulher preta de periferia.

A verdade é que o filme cresce, quando desacelera a trama e foca no crescimento de Rebeca como personagem, é aqui que Maria Bomani (Amor de Mãe) se mostra uma boa atriz ao conseguir trazer sensualidade e inteligência de uma mulher que se adaptou bem a sua realidade e enxergava problemas bem à frente de seus companheiros de crime. A garota não só tinha talento para o crime, como parecia a ser a única cabeça pensante destinada a comandar a Rocinha. O elenco ainda conta com nomes conhecidos de Mihem Cortaz, Natália Lage, JP Rufino, Natália Deodato, Jean Luis Amorim e o veterano Wilson Rabelo que ajudam dar peso a história.

Fonte: Paris Filmes

É claro que muitos vão dizer que o filme romantiza o crime, na verdade é exatamente o contrário, afinal o maior mérito da direção de Wainer é deixar claro que o caminho da bandidagem é um caminho sem volta e com fim anunciado a partir do momento que começa. Talvez por termos a tragédia anunciada desde o começo, que a narrativa tem seus méritos na forma como captura nossa atenção, não só pela trajetória da bandida, mas também pelo seu desfecho, que deve surpreender que espera algo mais previsível.

O fato é que mesmo com um orçamento limitado, esta obra consegue trazer uma trama honesta, mesmo com suas limitações e algumas atuações caricatas, se sobressai por conseguir trazer uma trama redondinha, que poderia ser ainda melhor se tivesse uma duração maior, inclusive este é um dos pontos de ressalva do longa, que se beneficiaria de um aprofundamento maior da saga de Rebeca como líder do tráfico, testando sua sorte dentro do mundo crime, afinal uma mãe de santo dizia que a garota era protegida de Ogum, por ter o corpo fechado.

De uma forma geral, “Bandida: A Número Um” conta a história dessa potência feminina que ascendeu no mundo crime para se tornar uma das maiores ameaças do crime no Rio de Janeiro no começo dos anos 90, cria da favela, abandonada desde a infância e sem amparo do estado, vemos aqui a trajetória de uma personagem intrigante num filme brasileiro que tem sim suas ressalvas, mas é muito bom dentro das suas limitações, pela trama bem contada e por prender a atenção do expectador do início ao fim. Com uma boa atuação de Maria Bomani, temos aqui uma produção nacional que vale o tempo investido, mesmo abraçando um gênero batido, mas que ainda rende quando bem executado.

Gostou? Veja o trailer abaixo e comente se já conferiu o longa.

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