Sensível, bonita e correta. A série brasileira da Amazon Prime que traz sua primeira protagonista trans é uma das gratas surpresas da temporada.

Não há uma forma mais eficaz de mostrar representatividade hoje em dia do que deixar as pessoas que vivem essa realidade ganharem espaço na mídia, seja ela através de campanhas, seja através da mídia de entretenimento, como televisão e cinema. O Brasil ainda carece de bastante disso e ainda sofre para dar espaço para chamadas “minorias”, mas aos poucos esse cenário vai mudando e prá melhor, o audiovisual brasileiro já tem diversos exemplos e agora os serviços de streaming começam a focar bastante neste de tipo de representação.
Os ventos da mudança chegaram no Amazon Prime, que estreou no dia 25 de junho a primeira temporada da série “Manhãs de Setembro”, que conta a história de Cassandra (Liniker), uma mulher negra e trans que ao chegar num momento de independência na vida conseguindo finalmente à aquisição de um apartamento modesto em um bairro de São Paulo, vê sua vida de mulher independente mudar com a chegada de filho que ela nem sabia que existia.
A série “Manhãs de Setembro” é um drama com toques de comédia, mas sem pesar a mão para um dos lados. A narrativa começa de uma forma bastante envolvente no seu piloto “É Só Por Hoje” (1×01), onde acompanhamos a rotina de Cassandra, sua vida como entregadora de aplicativo percorrendo vários lugares de São Paulo, seu namoro com Ivaldo (Thomas Aquino), sua vida noturna como cantora na boate “Metamorfose” da sua amiga Roberta (Clodd Dias) onde ela mostra sua verdadeira vocação para performance.

O interessante aqui é que a música embala a série, a admiração de Cassandra pela cantora Vanusa e seu sonho de ser uma estrela como ela é o que move a narrativa de uma forma bastante lírica, inclusive “Manhãs de Setembro” que dá o nome ao seriado é uma das músicas mais famosas da cantora já falecida, é cantada pela artista no final do episódio, mostrando os dotes vocais de Liniker e dando um apelo emocional bem vindo para um episódio praticamente sem defeitos.
Ainda no primeiro episódio, somos apresentados a Leide (Karine Teles) e seu filho, o pequeno Gerson (Gustavo Coelho), que vivem nas periferias da capital paulista tentando a viva e a sobrevivência vivendo os perrengues do dia-a-dia vivendo dentro de um carro que funciona como uma casa provisória para eles. Quando as coisas começam a apertar, a dupla acaba batendo na porta de Cassandra com a desculpa que o garoto queria conhecer o pai, fazendo o mundo da cantora virar de cabeça para baixo.
A série é sobre a relação pai e filho, ainda que Gerson não aceitei a nova realidade do “pai”, isto acaba se transformando numa relação de mãe e filho, até porque Cassandra está bem resolvida como a mulher forte e independente que se tornou, vendo a chegada do menino como um empecilho para viver a própria vida, algo que atrapalharia seu namoro com Ivaldo e sua vida como artista também.

O roteiro foca muito nesta relação, mas constrói arcos adjacentes desenvolvendo outros personagens que circulam na órbita de Cassandra. A série tem um ritmo rápido com episódios que variam entre 25-35 minutos conseguindo trazer uma carga dramática eficiente numa relação bastante sincera e bonita entre Cassandra e Gerson, isso fica muito evidente já no episódio “Para De Me Chamar De Pai!” (1×02), mesmo que inicialmente ela seja cheia de conflitos.
Gosto como a série vai moldando aos poucos a noção de Gerson em relação a Cassandra, o menino que almeja uma figura paterna, ainda que não compreenda (ou não quer compreender) a nova realidade que está diante de seus olhos. O interessante do roteiro do seriado é a forma como ela insere assuntos importantes através de breve diálogos entre personagens, por exemplo, em uma conversa entre Gerson e sua amiga Grazy (Isabela Ordoñez) a conversa sobre o assunto surge, inclusive a menina aceita muito melhor o fato do “pai” de Gerson ser uma mulher do que o garoto, mostrando que crianças e adolescentes precisam de mais informações e conversas sobre esses assuntos, ainda que sejam tabus em nossa sociedade.
Aos poucos a narrativa vai inserindo Gerson no universo de Cassandra e criando uma relação que vai ficando mais forte a cada nova interação entre eles. Em “Gersinho” (1×03), a série mostra as dúvidas e incógnitas enfrentadas por Cassandra, que tem como voz da consciência a própria Vanusa para guia-la nas decisões que toma em relação ao filho e a ex que passa também ser um “problema” em sua vida.

Existe uma cena neste terceiro episódio que mostra que “Manhãs de Setembro” é uma série muito sensível naquilo que quer contar e bastante emotiva quando precisa pegar o expectador de jeito, a forma como Gerson olha para Cassandra ao vê-la cantar em num ensaio no bar que canta, é um dos momentos mais lindos da série e mostra que este tipo de história foi feito para enxergarmos pessoas trans como seres humanos com acertos e defeitos como qualquer outra pessoa, que passa pelas mesmas dificuldades e estão em busca de um mesmo sonho, uma vida estável, livre e independente.
Os dois últimos episódios são cheios de conflitos que ajudam a mostrar a complexidade de uma história que tem muito para render ainda. Se em “É Pegar Ou Largar” (1×04) a história as vezes se torna um pouco repetitiva, narrativas acabam por se alongar um pouco, porém não há como negar que tudo funciona bem como uma boa preparação para o que estar por vir no final da temporada.
Em termos técnicos, “Manhãs de Setembro” é uma produção caprichada, a direção de Luis Pinheiro nos dois primeiros episódios é bastante sólida, trazendo tomadas externas magníficas conseguindo deixar a fotografia ainda mais linda mostrando uma São Paulo periférica e cheia de personalidade diferente do que já vimos em seriados e novelas. As tomadas mais íntimas dos personagens também são bem feitas privilegiando os pequenos momentos de diálogos que ajudam a enriquecer a narrativa, exemplo aqui é a cena em que Cassandra tem com as amigas após uma festa, onde uma delas desabafa sobre a realidade de uma mulher trans se apaixonar e viver um grande amor, é poderoso e significativo e mostra um tipo de desejo e solidão enfrentada por muitas delas.

A trilha sonora é outro grande destaque, não só pelas diversas canções de Vanusa que permeiam a narrativa, mas pela diversidade de canções nacionais que ajudam a tocar bem o enredo valorizando bem este produto nacional. Em relação ao elenco, em sua maior parte eu gostei dos atores, Liniker (Bixa Travesty) tem suas limitações dramáticas, mas no geral como atriz ela tem muita personalidade e cresce muito quando solta a voz, além de trazer uma complexidade e altivez para Cassandra que nos deixa torcendo para personagem ser feliz tanto com Ivaldo, quanto com o filho.
Outros destaques do elenco são Thomas Aquino (Bacurau) no papel de Ivaldo, aliás, seu personagem que não sai do armário tem um arco bacana com a filha gay que pode render mais no futuro, a sempre ótima Karine Teles (Benzinho) no papel de Leide, traz uma personagem que é difícil de odiar, porque você entende as coisas que ela passa. Os atores mirins Gustavo Coelho e Isabela Ordoñez (Treze Dias Longe do Sol) são ótimos, o primeiro mostra segurança em cena e boas expressões também principalmente quando contracena com Karine e Liniker, a segunda é puro carisma. Outros breves destaques são Linn da Quebrada (Segunda Chamada) como Pedrita, Clodd Dias como Roberta, Paulo Miklos (Estômago) como Décio e Gero Camilo (Carandiru) no papel de Aristides.
Por tudo que foi comentado, “Manhãs de Setembro” é um seriado magnifico, com muito a dizer, que traz uma história boa de acompanhar e impossível parar de assistir, os arcos são desenvolvidos com cuidado e talvez seu único defeito seja ter poucos episódios, inclusive o final de temporada “É Isso Mesmo, Baby Enjoy” (1×05) deixa algumas questões em aberto, porém consegue desenvolver bem seus personagens garantindo boas possibilidades para o futuro, seus conflitos e principalmente, consegue dar voz e protagonismo para uma mulher trans mostrando sua realidade de uma forma bastante sensível e respeitosa. Em um país que mata uma quantidade assustadora de pessoas trans, uma série como esta que mostra a história de uma delas de uma forma tão naturalizada e cheia de sonhos, é um alento de que um dia nossa sociedade possa ser menos preconceituosa e mais tolerante, este seriado mostra que é possível e precisa virar uma realidade o mais rápido possível.
Gostou? Veja o trailer. Se já assistiu ao seriado, dê sua opinião nos comentários, quero saber o que você achou.

2 comentários sobre ““Manhãs de Setembro” – 1° Temporada – Crítica”