Um Olhar Preto – Coluna Especial – “A Nobreza do Amor e o Poder da Representatividade Preta na TV Brasileira”

O poder preto! A estreia da novela das seis abre as portas da africanidade preta fazendo ponte entre o velho continente africano e o Brasil num romance com toques de fantasia numa crescente de histórias pretas na TV.

Foto/Reprodução – Rede Globo

A primeira cena é a câmera correndo pelo mar até chegar num forte e a legenda revelar o local, em algum lugar do continente africano, existe o reino de Batanga. Uma terra fictícia que onde se inicia a história da nova novela das seis “A Nobreza do Amor”, protagonizado por Duda Santos (Garota do Momento) e o novato Ronald Sotto que se passa tanto na fictícia Batanga, quanto na fictícia Barro Preto, esta localizada em algum lugar do Nordeste brasileiro.

É muito gratificante escrever que estamos num momento lindo na TV brasileira com a trama escrita por Duca Rachid (Cordel Encantado), Julio Fisher (Amor Perfeito) e Elisio Lopes Jr (Amor Perfeito) tomando forma e trazendo uma trama afrocentrada com protagonistas negros misturando cultura afro e suas influências na cultura brasileira num romance regado a muitas lendas, ancestralidade, religiosidade e tempero preto da melhor qualidade.

Muito se fala sobre o poder da representatividade na TV e parece que estamos evoluindo bem com o que parece ser a consolidação e normalização de histórias com protagonistas pretos na TV. A narrativa que está indo para sua terceira semana passou praticamente seus primeiros capítulos em Batanga com algumas cenas em Barro Preto, mostrando a cultura de um povo que tem boas influências em elementos reais e tramas fictícias como o longa “Pantera Negra”, com vestimentas que reverberam os países africanos em toda sua qualidade cultural.

O primeiro capítulo da novela começa com uma abertura lindissima ao som de “Zumbi” de Jorge Ben Jor e deslumbrante, com rei Cayman II (Welket Bunguê) e a rainha Niara (Erika Januza) ascendendo ao trono, depois que a rebelião auxiliada pelo ambicioso braço direito do rei, Jendal (Lázaro Ramos), resulta na expulsão de invasores finalmente iniciando uma era de prosperidade no reino.

Foto/Reprodução – Rede Globo

A trama possui vertentes interessantes que se entrega ao estilo tribal, mas também mostra um glamour que a cultura africana sempre teve, mas nunca tinha sido mostrada com esta pompa e sem estereotipo na TV brasileira. É claro que a Rede Globo ainda está num período de adequação e por mais que o investimento seja alto, em alguns momentos fica nítido que poderiam ter contratado mais figurantes para sequências externas e de cotidiano no reino.

Ainda assim, “A Nobreza do Amor” traz uma oportunidade para o povo brasileiro se acostumar a se enxergar em tela, afinal a maior parte da população brasileira é composta por negros e pardos. É a chance de normalizar a pele preta em todas suas vertentes, seja da cor mais claro ao preto mais retinto, é o momento de pertencimento que traz um sorriso gigante no rosto daquele que vos escreve.

É muito bom que envolta de protagonistas tão jovens como Alika (Duda Santos), princesa e herdeira de Batanga e Tonho (Ronald Sotto), um jovem humilde e trabalhador de Barro Preto, tenha tantos veteranos de boa qualidade para dar suporte ao peso de carregar uma novela desta magnitude. Ter Lázaro Ramos, Bukassa Kabengele, Cynthia Coentro, Paulo Lessa e a veterana Zezé Motta, retornando as novelas depois de décadas, puxando o elenco preto, misturado com outros veteranos como Cássio Gabus Mendes, Ana Cecília Costa, Fabiana Karla, Danton Mello, Emanuelle Araújo, Fábio Lago e Marcelo Médici, é botar confiança que o projeto irá dar certo.

Foto/Reprodução – Rede Globo

E olha que ainda nem citei os jovens Nicolas Prattes, Theresa Fonseca, Rodrigo Simas, Nikolly Fernandes, além da novata de primeira viagem Rita Batista (saída fresquinha do “É de Casa”), dentre outros atores e atrizes devem dar o ar da graça no folhetim. Ou seja, a novela está com um ótimo elenco, produção caprichada e pela impressão dos primeiros capítulos e forte engajamento online nas redes sociais (a novela está em primeiro lugar no top 10 do Globoplay) a vontade de fazer história em relação ao protagonismo de histórias pretas na TV.

Outro ponto que vai de encontro com o que foi citado é perceber que a Globo está valorizando atrizes negras de talento. Duda Santos emendando sua segunda protagonista depois do sucesso de “Garota do Momento”, é mostrar que não só atrizes brancas talentosas tem vez, mas que protagonistas pretas talentosas também tem seu espaço na teledramaturgia brasileira.

Desta forma, o pontapé inicial de “A Nobreza do Amor”, instaura mais um movimento acalentador da TV em relação a histórias pretas e com potencial de ter ainda mais tramas como esta, caso este projeto seja bem sucedido. Pontuo que independente da audiência, mas valorizando o comprometimento do elenco, dos autores e reação do público, que esta novela consiga ser consistente do início ao fim para que possamos celebrar mais uma empreitada com produto concebido para atender o público geral, principalmente o público preto, tornando-se o início da normalização da cultura afrocentrada na TV.

Gostou? Veja o trailer abaixo da novela e comente o que está achando do novo folhetim das seis.

Veja a linda abertura ao som de “Zumbi” ao som de Jorge Ben Jor.

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