Um Olhar Preto – Coluna Especial – “Dona de Mim e a falta de evolução de personagens pretos em novelas”

Clichê e dentro da zona de conforto! A trama das sete chega ao fim carregada de carisma, mas com uma narrativa que se repetiu em diversos momentos, porém entregou entretenimento graças ao elenco e uma boa direção.

Foto/Reprodução – Rede Globo

Quando você estiver lendo este texto, provavelmente terá assistido ao último capítulo da novela escrita por Rosane Svartman, “Dona De Mim”, novela das sete que estreou em 28 de abril de 2025 e finalizando sua jornada no último 9 de janeiro de 2026 e encerrando um ciclo de mudanças e protagonismo preto mais frequente que passou a ser normalizado a partir de uma onda que começou com em 2023, coincidentemente no período que “Vai Na Fé” estava no ar e foi escrito pela mesma autora.

Este ciclo fecha esta primeira leva de mocinhas pretas protagonizando novelas na Globo com o protagonismo de Clara Moneke, sua primeira mocinha que se tornou um desafio para manter interessante ao longo dos exaustivos 218 capítulos de uma novela que estruturalmente ficou bastante na zona de conforto e dentro de assuntos pertinentes que Rosane adora colocar em suas tramas.

O enredo que gira em torno de Leona (Moneke), uma jovem batalhadora, bem humorada e determinada que vive passando perrengue financeiros sempre tentando ajudar a avó Yara (Cyda Moreno) e a irmã mais nova Stephany (Nykolly Fernandes). Sua vida muda quando sua vida cruza com da família Boaz e a moça precisa virar babá de uma garotinha sapeca, Sofia (Elis Cabral), que acaba por mudar sua vida.

Foto/Reprodução – Rede Globo

A sinopse era cristalina e a trama central forte, ainda mais por Leona ter um passado triste com a perda de um bebê e o fim do relacionamento com o policial Marlon (Humberto Morais). A primeira metade de “Dona de Mim” é muito boa como todas as novelas recentes da Globo, capítulos bem desenvolvidos, ganchos bons, personagens carismáticos e ritmo gostoso de acompanhar.

As temáticas fortes que inclusive são temas exaltados no último capítulo, ajudam a desenvolver bem uma trama que fala sobre emponderamento feminino, emponderamento feminino preto (sim são coisas diferentes), conduta policial, estupro, acessibilidade, diversidade gênero, bipolaridade, maternidade, luto, dentre outros que vão sendo mostrados ao longo da narrativa.

São temas que “Dona de Mim” em sua maioria lidou bem, mas claramente se viu uma falta de profundidade em muito deles. Enquanto a mão do roteiro pesou muito a mão no clima quando tratou de algumas temáticas, inclusive perdendo as características leves da novela em alguns momentos, tramas como de Kami (Giovanna Lancellotti) que trataram sobre estupro, foram bem conduzidas e importantes, foi onde a direção de Allan Fiterman conseguiu trazer informação e impacto para história.

Talvez o que mais incomodou na novela, foi o fato de que por ser extensa demais, acabou por apresentar as famosas “barrigas”, com tramas que no começo pareciam bem conduzidas, na segunda metade ficaram apenas repetitivas, como a briga da guarda pela Sofia, a relação exaustiva de Leona e Sofia, as diversas tramas armadas por Jacques (Marcelo Novaes) sempre se dando bem em cima de Samuel (Juan Paiva), sua mãe Rosa (Suely Franco) e os demais irmãos.

Foto/Reprodução – Rede Globo

Tudo isso se acentuou quando a trama trouxe a morte de Abel (Tony Ramos) a tona, de longe um dos melhores personagens da novela, o patriarca da família Boaz, mexeu com a estrutura da história e com todos personagens, fazendo inclusive Suely Franco se destacar de uma forma bastante positiva no papel de Rosa, com um carisma e apelo emocional que pegou o público de jeito, numa das melhores atuações de 2025.

Após esta reviravolta na metade da novela, “Dona de Mim” entrou numa espiral que acabou por afetar a evolução de diversos personagens, com exceção a trama de Ryan (L7nnon), recém saído da prisão e disposto a se regenerar após uma injustiça, o personagem teve o arco mais sólido da novela trazendo uma atuação surpreendente do rapper agora ator.

Veja bem, a condução narrativa que Rosane e seus colabores imprimiram na novela, ainda sustentava as tramas com bons momentos e bons ganchos, mas claramente muitos personagens, consequentemente muitos deles atores pretos, foram prejudicados numa evolução que acabou por minar o potencial de muitos deles, algo que anda sendo recorrente, pois autores brancos não conseguem sustentar suas tramas.

Clara Moneke, Elis Cabral e Tony Ramos

Um dos exemplos é o Marlon, o policial passou por diversas situações atuando na polícia, em paralelo era um mulherengo protegido pela mãe que teve no último capítulo um apagamento, porque sua trama com a protagonista serviu apenas como ponto de amadurecimento para Leona, porém o personagem merecia mais e um futuro mais redondinho, porém no final das contas foi apenas ok.

Uma das vilãs, Tânia Góes (Aline Borges), fez várias armações, muitas delas com Jacques, porém sempre mostrou personalidade e carisma, infelizmente nos últimos capítulos virou uma personagem de uma nota só, além de mostrar que os vilões na novela não são punidos, sempre se safando de armações e perigos infligidos aos personagens.

E este foram só dois exemplos de personagens negros que foram prejudicados e evoluíram para gerar desfechos aquém do esperado. A irmã de Marlon, Dara (Cecília Chancez) também tinha um sonho de ser MC, mais foi pouco abordado, assim como Pam (Haonê Thinar), que tinha uma boa evolução como trabalhadora da fábrica dos Boaz, porém sua evolução soou apressada e sem sutileza quando assumiu um cargo maior.

Foto/Reprodução – Rede Globo

Talvez o maior sacrilégio aqui, tenha sido com a personagem da Leona, a protagonista tinha um potencial imenso, não só lidar com luto de um filho perdido, mas superar esse trauma cuidando de Sofia, mas também perseguindo seu sonho de empreender. A trama das personagens ficou tão obsessiva em relação a uma criança que não era sua, que no final ficava claro que a personagem precisava de ajuda profissional para superar seus traumas projetando o amor da filha morta numa criança que era apenas para ela cuidar.

O que faltou aqui, é um cuidado sobre a trajetórias de personagens pretos, que não podem ser desenvolvidos até certo ponto e com risco de ficarem repetitivos. Infelizmente foi o que aconteceu com Leona, que passava 80% do tempo pensando em Sofia e nos outros 20% ficaram esperando alguém comentar para poder se intrometer nos assuntos relacionados a menina e que não eram da sua conta.

Isto prejudicou bastante até a relação com o Samuel, que no começo era bem construída e o público torcia pelos mocinhos, na reta final claramente o roteiro tentou consertar a trama do personagem de Juan Paiva, pois estava deixando um dos personagens mais queridos do público, chato e sem expressão, prejudicando o romance com Leona no processo.

São esses por menores que fizeram “Dona De Mim” irritar mais do que agradar, mais uma vez, Leona tinha um potencial enorme e infelizmente tudo foi tratado superficialmente prejudicando o protagonismo que as vezes sumia por falta de trama, que estava ali pronta para evoluir, mas completamente engessada devido a falta de profundidade.

Foto/Reprodução – Rede Globo

É claro que no último capítulo a novela tentou remendar o máximo que pode todas as repetições e tramas soltas. Inclusive os vestígios daquele novelão do começo apareceram em peso aqui, apesar da resolução do desfecho do Jacques ter durado dois minutos, o restante foi bonito de assistir: Ryan fazendo palestra no presídio mostrando para os outros presos que tem saída após prisão, Samuel tendo uma visão com o pai Abel, Filipa (Claudia Abreu) falando sobre seu problema de bipolaridade, sem falar no casamento de Leona e Samuel (é bom ver um casal preto se destacando assim), o melhor momento do capítulo final.

O maior trunfo de “Dona de Mim”, foi seu elenco, que teve como base veteranos roubando a cena, como Suelly Franco (seu melhor papel na carreira), Tony Ramos, Marcello Novaes e Claudia Abreu deram um show. Alguns destaques de atores negros vão para L7nnon (grata surpresa), Camila Pitanga (retornou a trama e segurou o papel no talento), Humberto Morais, Juan Paiva, Aline Borges e Clara Moneke, que mesmo sendo limitada pelo roteiro, conseguiu segurar suas cenas dramática bem.

Um dos grandes destaques da novela foi a atriz mirim Elis Cabral, um carisma que segurou várias cenas inclusive com veteranos. Muito se fala em talento, mas a pequenina tinha uma ótima química com a Clara Moneke, Tony Ramos, Suelly Franco e Camila Pitanga, é raro uma criança conseguir sobressair em meio a tantas atuações marcantes, mas a garotinha conseguiu.

Foto/Reprodução – Rede Globo

De uma forma geral, “Dona de Mim” encerra sua trajetória de uma forma honesta, cheia de clichês, as vezes muitas repetições, porém com qualidade em muitos aspectos devido a direção e algumas atuações já citadas. É fato que existe uma necessidade dos autores não abandonarem a evolução de seus personagens e aqui fica nítido que muitos personagens pretos foram prejudicados, ainda que tenham tido destaque.

Isto não diminui a qualidade da novela, mas serve como alerta que pode acabar deixando expectadores irritados e contra personagens interessantes, por falta de desenvolvimento e coerência narrativa. Ainda assim, existe diversos momentos e temas abordados da forma certa que torna esta trama boa de assistir e o último capítulo comprovou isto, o monologo de cada personagem durante o casamento sobre o que queriam para futuro foi maravilhoso e nos dá esperança que novelas possam ser clichês sim, sem trair o que construíram e com uma trama mais redondinha, afinal o público merece um novelão de respeito, e “Dona de Mim” entre altos e baixos, conseguiu entregar isso nos últimos minutos.

Gostou? Veja o trailer abaixo e comente o que achou da novela.

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