“A Lenda de Candyman” – Crítica

Uma sequência com cara de reboot, a diretora Nia DaCosta consegue fazer uma mitologia conhecida atingir todo seu potencial narrativo nesta nova versão de Candyman.

Fonte: Universal Pictures

Está aí um dos filmes que estava mais curioso para assistir este ano. Depois de diversos adiamentos por conta da pandemia, finalmente estreou nos cinemas “A Lenda de Candyman” (Candyman, 2021), longa de suspense e terror que é uma espécie de sequência repaginada do original O Mistério de Candyman que se tornou um clássico do gênero, mas que agora ganha uma nova roupagem que promete deixar a audiência arrepiada por muito tempo.

A premissa é simples, conta a história de um artista que para se inspirar acaba conhecendo a lenda de Candyman e resolve fazer uma exposição relacionado ao tema. Segundo a lenda local, a criatura é invocada quando seu nome é dito no espelho cinco vezes. Aos poucos o Anthony (Yahya Abdul-Mateen II) percebe que está envolvido numa teia de mistérios, mortes e sangue que podem significar que talvez a lenda pode ser real.

Em “A Lenda de Candyman”, vemos uma história que não esquece as raízes do passado, na verdade a narrativa abraça firmemente tudo que foi estabelecido no longa original e a partir disso começa a criar algo novo e mais completo seguindo seu próprio caminho, deixando de lado alguns elementos sonoros que geravam sustos fáceis, mas que aqui se transformam num suspense psicológico brutal que vai fundo nos traumas das comunidades negras abraçando diversas temáticas sociais que tornam o filme bastante relevante e atual.

O roteiro escrito por Jordan Peele (Nós), Win Rosenfeld (Infiltrado na Klan) e a própria diretora Nia DaCosta (Little Woods) é cuidadoso e didático ao mesmo tempo, logo de início conhecemos a história de Helen Lyle (Virginia Madsen) durante um jantar em família com Anthony (Yahya), sua namorada Brianna Cartwright (Teyonah Parris) e seu cunhado Troy (Nathan Stewart-Jarrett) e seu namorado Grady (Kyle Kaminsky), história essa que fala da trágica morte dessa estudante após enlouquecer fazendo a matéria sobre uma lenda local.

Fonte: Universal Pictures

Ao estabelecer a história de Lyle, a narrativa mostra que a lenda de Candyman ainda esta presente na memória dos habitantes de Chicago. O filme tem uma crescente bastante interessante, quanto mais Anthony vai pesquisando sobre os mistérios de Cabrini Green e Candyman, mais isso afeta sua arte e sua saúde mental à medida que a história vai se desenvolvendo.

O maior trunfo que vejo em “A Lenda de Candyman” é a direção de Nia DaCosta, aqui a cineasta mostra bastante personalidade num estilo de direção com enquadramentos inusitados e outros que deixam o terror ainda mais marcante à medida que a figura sobrenatural começa a fazer suas vítimas. A diretora apesar de as vezes não conseguir segurar o terror e o suspense, consegue ao menos ser bastante eficiente na execução das cenas de puro gore que nos traz no mínimo desconforto, destaque para sangrenta cena no banheiro da escola e na sequência final no terceiro ato.

Um dos questionamentos que fiz quando assisti “O Mistério de Candyman” era o fato da narrativa não saber explorar as diversas questões sociais envolvendo as comunidades negras e periféricas. Aqui em “A Lenda de Candyman”, DaCosta ganha pontos por se aprofundar nestas questões não só através da arte, mas também através da gentrificação da periferia onde o roteiro aproveita para ir na raiz do problema que assola essas comunidades atuais.

Fonte: Universal Pictures

Os diálogos inclusive deixam isso muito claro, é interessante o quanto esse terror nos faz refletir quando percebemos o ciclo de sangue causado por uma simples lenda local é mais um reflexo do trauma vivido por famílias negras que perdem entes queridos seja por efeito colateral do racismo, seja pelo preconceito institucionalizado pela própria sociedade americana ou até mesmo pela violência urbana, tudo isso exemplificado através do personagem William Burke (Colman Domingo), um dos filhos do conjunto habitacional Cabrini Green que viu a lenda de Candyman corroer e amedrontar a comunidade em que vivia.

Ao focar no terror psicológico e na paranoia, “A Lenda de Candyman” deixa de lado os sustos fáceis e ganha peso ao deixar claro o lado sobrenatural da figura maligna que tem um gancho no lugar de um dos braços. Ao contrário da narrativa do filme original, aqui fica bem claro se a lenda é ou não verdadeira e o impacto que ela causa na sociedade. Fica claro na trama que para os brancos a lenda é apenas uma brincadeira exótica, para os personagens negros é um reflexo de suscetíveis traumas do passado que apenas tomam uma forma diferente reabrindo antigas feridas.

Por isso a escolha do elenco conta muito, Yahya Abdul-Mateen II (Aquaman) está ótimo no papel de Anthony, um pintor em busca de inspiração que vai perdendo a sanidade ao se deparar com o mito macabro que vai desafiando a lidar com os demônios do próprio passado, Yahya está muito bem aqui numa atuação sólida. Teyonah Parris (WandaVision) começa morna na história, mas sua personagem Brianna ganha mais camadas a medida que a história vai se fechando.

Fonte: Universal Pictures

O ator Colman Domingo (A Voz Suprema do Blues) tem um personagem que é o reflexo dos traumas causados por Candyman e a voz didática do roteiro que esclarece todas as dúvidas, ator esta bastante consistente aqui. Outros destaques são Nathan Stewart-Jarrett (Generation) e a atriz Vanessa William (O Mistério de Candyman), conservadíssima voltando a narrativa com sua personagem original do primeiro filme fazendo uma conexão bastante significativa nesta nova versão que deve agradar os fãs do original.

Em termos técnicos o longa é um achado, a fotografia é um charme a parte que elevado pela direção de Nia DaCosta e seus planos longos e fechados que conseguem refletir uma violência silenciosa e as vezes caótica de uma forma bastante estilosa. A trilha sonora não é tão marcante, mas é bastante sólida, sem falar que a direção de arte é muito boa e reflete bem a gentrificação da cidade onde bairros mais pobres são engolidos por arranha céus transformando esses lugares em pontos vazios, basicamente cemitérios urbanos no meio da metrópole.

De forma geral, “A Lenda de Candyman” é um ótimo filme, talvez não agrade aqueles que procuram um terror mais tradicional, porém deve ser um deleite para aqueles que gostam de um terror com cunho social, sem falar que a direção de Nia DaCosta é espetacular ao conseguir equilibrar uma narrativa que funciona como uma crescente que mistura suspense psicológico e um terror internalizado que fica com expectador após ele terminar de assistir. Ao respeitar e abraçar tudo que foi estabelecido no longa original, este filme funciona perfeitamente como uma sequência que traz boas surpresas em relação ao anterior, além de conseguir atrair uma nova geração de público ao se estabelecer como um terror moderno e reflexivo que deixa um gostinho de quero mais.

Gostou? Veja o trailer. Se já assistiu ao filme, comenta logo abaixo.

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