Terror tradicional!!! Dirigido por Lee Daniels estreando no gênero terror, temos uma narrativa com uma crescente muito boa, mas falha ao se tornar um filme gospel no seu terceiro ato, se salvando apenas pelo seu elenco estelar liderado por Andra Day.

O cinema de terror, principalmente quando se trata de longas voltados para personagens negros são raros no mainstream, apesar de termos obras excelentes recentes como “O Que Ficou Para Trás (2020)” e “Não! Não Olhe!”, a repercussão sempre foi mínima, com exceção da obra dirigida pela Jordan Peele mencionada anteriormente. A verdade é que este gênero ainda precisa ser abraçado pelos cineastas negros para ter mais êxito em termos de apelo junto ao público.
É claro que isto irá acontecer com o tempo, como nesta produção da Netflix, “A Libertação” (The Deliverance, 2024), longa que mistura drama e terror numa trama baseada em fatos que conta a história da batalhadora Ebony Jackson (Andra Day), que passa por dificuldades para cuidar dos três filhos e da mãe doente, começa a ver as coisas piorarem ao se mudar para uma casa misteriosa que parece ter uma presença maligna influenciando todos que habitam o lugar.
O longa dirigido por Lee Daniels (Estados Unidos Vs Billie Holiday) que pela primeira vez se aventura no gênero terror, começa bem, com uma atmosfera crua, que vai sendo construída de uma forma cadenciada para que o público perceba que algo esta errado na casa dos Jacksons. Ao mesmo tempo o roteiro escrito pela dupla David Coggeshall (Órfã 2: A Origem) e Elijah Bynum (Magazine Dreams) aproveitar para desenvolver cada membro da família acentuando a característica de cada um ao mesmo tempo que vai aprofundando o enredo macabro.

A matriarca da família Ebony, sofre com problemas de bebida, o filho mais velho Nate (Caleb McLaughlin) é fechado e vê a mãe como um problema, a filha mais nova Shante (Demi Singleton), vive a fase da adolescência e não se conforma com a pobreza da família. O filho menor Andre (Anthnoy B. Jenkins), está na fase de começar com amigos imaginários e parece o mais afetado pela mudança para a casa nova. E temos por último a mãe de Ebony, Alberta (Glenn Close), que está passando por um tratamento de câncer e encontra na fé a forma de pode ajudar sua filha e netos que estão passando dificuldade.
É a partir dessas características, que somos levados a uma trama que tem ecos de filmes conhecidos como “O Exorcista”, “Invocação do Mal” e “Exorcismo de Emily Rose”, para citar os mais populares, onde o terror vai crescendo, coisas estranhas vão surgindo e a situação da família parece ficar cada vez mais pesada, inclusive fazendo com que a assistente social Cynthia Henry (Mo’Nique) fica cada vez mais em cima de Ebony visando o bem estar das crianças.
A primeira metade de “A Libertação” funciona muito bem, Lee Daniels consegue criar uma atmosfera sombria, com portas abrindo do nada, animais mortos com constante mosquitos voando pela casa, além de sussurros e barulhos acontecendo de forma inexplicáveis. Tudo isto, é muito bem dosado, deixando a sensação de que algo sempre está para acontecer. O melhor aqui, talvez seja a forma como Daniels consegue usar o drama e conflitos entre a família para segurar atenção do expectador.

Então não há dúvidas que as atuações são o grande destaque do filme, ainda que o roteiro não ajude em alguns momentos, se tornando bastante piegas quando abraça muito o lado religioso em frases previsíveis que parecem saídas de um culto evangélico, o elenco consegue tornar bastante crível uma história carregada de clichês. O maior destaque é Andra Day (Estados Unidos Vs Billie Holiday), a atriz segura o filme do começo ao fim no papel de uma mãe quebrada pelos vícios alcoólicos que precisa recuperar a fé vendo sua família se despedaçar dentro uma casa nada convidativa. É fato que Day consegue dominar a cena e cresce muito contracenando com suas co-estrelas famosas.
A começar por Glenn Close (A Esposa), que mesmo com um papel que tinha tudo para ser estereotipado, a atriz consegue trazer destreza, humanidade e emoção para uma mulher que tem uma filha birracial e netos pretos. Outro destaque vai para Mo’Nique (Preciosa) que aparece pouco, mas tem algumas boas cenas quando contracena com Day. Aunjanue Elis-Taylor (Origin) no papel da reverenda Bernice James infelizmente soa como desperdiçada em cena, com uma personagem que só acontece na segunda metade, mas é puro estereotipo religioso, aí vai do público abraçar ou não. O pequeno Anthony B. Jenkins (Anos Incríveis [2021]) até que está bem no papel de Andre. Caleb McLaughlin (Stranger Things) não exatamente um destaque, mas até que faz uma boa participação.
A verdade é que com um elenco sólido desses, Lee Daniels acaba conseguindo desenvolver bem sua trama, porém fica claro sua inexperiência no gênero, ao se alongar muito em determinados momentos em que poderia ser mais direto. Infelizmente o começo promissor e o meio sólido, acabou resultando num terceiro ato que apesar de bem maluco, não tem o mesmo impacto do que foi construído, as saídas para resolução do problema demoníaco da família são muito fáceis com o roteiro dando quase super poderes para protagonista enfrentar uma forma que ela mal compreende.

Por tudo que foi comentado, “A Libertação” não é um filme ruim, é um bom filme na verdade, que só não é melhor, por usar os clichês dos gêneros de uma forma bastante exagerada, diminuindo o impacto narrativo da história quando olhamos de uma forma geral. Porém não a dúvidas que o filme é um bom entretenimento, com uma produção caprichada e com um elenco liderado por Andra Day que faz valer a pena ao menos conferida se está à procura de algo no gênero terror. O diretor Lee Daniels consegue entregar uma narrativa sólida, que apesar de longa em alguns momentos, ao menos oferece um entretenimento honesto, na medida do possível.
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